Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
O Anti-herói
A representação do protagonista vem se libertando, há tempos, das molduras-padrões-morais dominantes. E no contexto
contemporâneo, rompe com os parâmetros de virtude que permeiam a figura do herói. O cenário de uma sociedade sofisticada e conturbada se reflete no universo literário. A produção literária, então, elegeu um protagonista problemático e contraditório como o grande arquiteto das principais ações das narrativas: o anti-herói.
Fruto de uma sociedade corrompida, o anti-herói é caracterizado por fraquezas de caráter - ele age a partir de seus próprios valores e interesses. Portanto, não corresponde à imagem idealizada de um herói virtuoso e bravo. Ele não se enquadra ao padrão moral imposto. É um questionador  de moldes e modos que, embora aclamados e vigentes em seu meio social, para ele parecem hipócritas e injustos. Mas é um personagem muito inteligente e astuto. Por isso, vence as adversidades e sobrevive a custa de variados truques & tramas.
Como um grande exemplo de anti-herói, podemos citar Pedro Malazartes, um personagem antigo e um tanto fora de moda, porém emblemático. Caracterizado por inúmeros desvios de caráter, como a vingança e a mentira, é sobre tudo traquinas. Consta que, por isso, não foi aceito no céu e nem no inferno. Sua origem remonta a tempos ibéricos, quando foi difundido em Portugal, Espanha e suas colônias. No Brasil, povoou o cenário dos “caipiras” e sertanejos. Suas  histórias eram divulgadas pela tradição oral entre amigos, pais e filhos..... Mas Luís da Câmara Cascudo reuniu aproximadamente trezentas histórias de suas aventuras em uma obra.
Outro anti-herói, mais atual, é Shrek – um ogro solitário, irônico, mal humorado e muito divertido. Suas características físicas “diferentes” abalam os padrões, mas sensibilizam e podem até conquistar leitores ou espectadores pela identificação.  Shrek protagoniza um conto de fadas que promove padrões principescos. No entanto, se enquadra em um grupo que não corresponde às expectativas (principalmente estéticas). É descobrindo outros valores e assumindo o seu tipo físico e seus sentimentos, que ele chega a um “final feliz” com sua Fiona.
Concluímos, então, que o poder articulador do universo literário é fundamental para a alimentação da alma e transformação do homem. Talvez, por isso, histórias e personagens já existissem  muito antes de haver a escrita.

Cristina Ribeiro
22/05/2012
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 29/05/2012
Alterado em 28/07/2026