Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
Separação
          Morei, por um certo tempo, em uma casa. O bastante para estreitar laços com tudo o que minha percepção alcançou naquele espaço sagrado de pai e mãe. Um belo dia, os meus pais voaram para o etéreo e eu tive de juntar minhas tralhas e sair. Não é fácil nos separar, seja do que for, porque não implica só o desligamento doloroso de relações afetivas. Tem todo um mundo paralelo de atmosferas que nos submete como um vício.

          Me lembro de uma rede no terraço onde, à tarde, as folhas das  palmeiras acenavam para mim, enquanto eu cantava como Ismália enlouquecida na torre. Eu era quase adulta, mas minhas lentes eram coloridas demais e me inclinavam ao exagero de paixões. Amava profundamente os gatos das redondezas que aterrisavam, no quintal, desfilando suas sinuosidades irresistíveis para tocaiar passarinhos, mas deixavam um miau charmoso como forma de desculpas - eles sabiam do meu amor por eles e pelas aves. A dindinha lua só podia ser minha amiga. Todo dia, despontava no mesmo lugar. Havia um  ângulo perfeito para ela na minha janela preferida da sala, onde a gente trocava cores e luzes e jurávamos amizade eterna, como se aquele pedaço aberto fosse meu pro resto da vida. Nos fundos, próximo à área de serviço, as folhas de guaco subiam na parede e minha mãe colhia algumas para um chá milagroso e delicioso, bom para todos os fins; havia uma goiabeira, com um aroma tão enlouquecedor, que perfumava todo o ambiente, era comum as cestas cheias de goiaba e vários potes de goiabada para comer e distribuir. Todo aquele olor permanente morava no meu nariz porque eu sempre sentia, mesmo quando não estava ali; e de quebra, tinha o pé de jambo, generoso, da vizinha que atirava seus frutos pelo corredor, na lateral da casa. Ah, ela também tinha um papagaio que cantava. Do nada, a cantoria dele reverberava em todo canto da casa e parecia que até as paredes se encantavam com aquela manifestação inexplicável de uma simples ave. "Atirei o pau no gato" era a sua cantiga preferida. A emissão rouca, logo no início da melodia, tornava impossível não sorrir e não abrir as portas do peito para deixar entrar a alegria. Ainda lembro do som atrapalhado que saía do seu bico. A transcrição seria mais ou menos assim:

"aaaahhhtirei o pau nu gatutu,
maiso gatutu num morreu-rreu-rreu,
dona Chicacá dimirocecê
duberrô, duberrô
cugato deu, miau!!".

          Caramba... tinha tanta coisa... o cachorro Baby, um porquinho-da-índia, bem-te-vis, borboletas, porquinho-da-índia  e as Três Marias que despontavam num pedaço de céu, acima da calha do quartinho de bagunça...

          Nem vou falar do jardim e da varanda... Uma vez, de bobeira, bem tarde, fui sentir o cheiro da noite, o vento amistoso no rosto, e dei de cara com um eclipse... fiquei paralisada... não esperava por tal sincronia perfeita naquele instante. Cheiro da noite, vento no rosto e eclipse é overdose! Um belo dia, aguando as plantas da varanda, veio um som inesperado da sala. Era o Jô Soares gritando  um nome que eu sempre tremo só de ouvir. Saí doida, me atirei na frente da TV, e aquilo, sim, foi eclipsante, o mundo sumiu, como sempre... o astro que projetou luz no meu planeta tem o dom de eclipsar o mundo... foi nessa casa que eu comecei a construir, dia após dia, um sentimento tão forte que fossilizou dentro de mim e resistiu ao tempo e a todo e qualquer corte. Foi lá que, seis meses após a partida da minha mãe, eu passei em dois concursos que determinaram o rumo atual da minha vida: um me deu uma carreira profissional pública, o outro me deu uma graduação em Letras e encheu a minha cabeça de luzes.

          Quantas vezes, contei estrelas, deitada na espreguiçadeira, no meio do jardim... O céu todo piscava sorrindo cada vez que minha filha, ora pequenininha, tentava encontrar o "espetinho" - um personagem trapasseiro que eu inventei e que nunca deu as caras: vivia escondido dentro de mim. Ela o procurava nos meus cabelos, no pescoço, nos peitos... tudo sob as estrelas... e ia assim até dormir. As noites eram mágicas. A casa parecia afogada em um azul galáctico à noite.

          Mas um dia, um abalo císmico entortou e desviou o caminho. Um caminhão-baú mudou minhas coisas de lugar, deixando toda essa bagagem intransferível. Nesse dia, foi extirpado de mim um mundo encantado, que marcou minha juventude e alimentou o meu lado lúdico até a maturidade. Foi aí que eu pude entender totalmente o que é uma "separação" de fato.

Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 07/04/2025
Alterado em 28/07/2026