A vida arrastada de Ed Vie
Não sei se foi na ponte ou no caminho que Ed Vie, um dia, encontrou Ed Mort - dois opacos, apáticos, sorumbáticos; nem na tela tinham viço. Ao contrário de Dorian Gray, tudo era morte neles, por isso, a incorporação recíproca seguida de fusão definitiva. Havia, no entanto, uma auréola estranha e uma certa beleza camuflada em Vie. Era uma composição de olhos verdes, pele fina, cabelos mesclados em preto e branco brilhando ainda, mas tinha um jeito que gritava. Tinha cara de palavrão permanente, um amarelo de Jeca Tatu, aquela pessoa que acorda contrariada: pra quê, por que?! Despertar era um castigo.
Personagem difícil, de deixar maluca uma escrevinhante ante um troço cheio de nada pra referir; um desafio, um inventar sem saber como seria, um começar sem saber como chegar ao fim e o que pôr no meio. Como falar de uma poça, uma gota pingando na pia.
De manhã, Ed Vie se arrastava para a via, seguindo pro trabalho. No ônibus, era uma estaca imóvel, uma pedra no meio dos passageiros; na calçada, uma ameaça de nunca mais mover os pés; no setor, nem olhava pro lado. Mecanicamente, produzia; respondia, na dúvida, "bom dia". Invés de vida, as dívidas ocupavam confortavelmente o chão enveredado do seu pensamento.
Mas tinha tempo e boca para se dar bem num ataque surpresa a algum colega ou outra coisa que lhe desse a garantia de um tênis novo, um queijo no café, uma iguaria diferente no almoço. Não que se preocupasse com a saúde. Alguma coisa tinha que diferir da rotina, da monotonia dos dias todo dia. Em nome disso, lançava aquele olhar de cachorro na primeira vítima, às vezes, com êxito.
Faltava nele inspiração. A natureza enlouquecia, pintando a cidade: os telhados ficavam mágicos sob o sol da manhã; à tarde, o azul coloria caminhante às novas nuances até chegar triunfante ao crepúsculo vespertino, repleto de sons das aves se aninhando ao aconchego das árvores... E depois, as cenas de cinema em preto e branco da noite... as folhas de palmeiras ficavam belíssimas projetadas nos prédios da rua. Outros bichos sabiam da sua vida sem corrente sanguínea; então, também, produziam lindos chiadinhos, piados; um cachorro fazia graça latindo um repetitivo rítmico "vaivevovó! vaivê!". E as mariposas? Voavam malabaristas, davam mortais e rasantes na cara dele para enfeitar seus olhos repletos de caixa de papelão, trapos ensebados nos cantos de todos os cômodos da casa, até na cama cuecas indescritíveis dormiam sempre ao seu lado; mas que nada... nada de sombras esculpidas pela natureza noturna surtiam efeito; nem mesmo o gato - única beleza perfeita daquele ambiente - conseguia transformar alguma coisa no Vie soturno, nada provocava movimentos coloridos nele, nada pulsava. Só Ed Mort se via no Vie sem aorta, um 'natureza morta' sem jugular, sem lar que aquilo em que vivia era qualquer outra coisa.
Ed Vie partia para todas as manhãs com a mente ocupada de muitas coisas: latas de bebidas, contas e toda a tralha fétida empoeirada que tinha pela frente em casa. Em sua mente, não havia mais espaço nem clima para qualquer tela nova do cotidiano.
Ed Vie era de morte... Ficava melhor enquanto dormia. Poderia até ser modelo de Edvard Munch.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 03/08/2025
Alterado em 12/08/2025