Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
Literática
          Vez ou outra, me sinto ridícula por conta (olha só!) de amar e escrever. Dois verbos denunciadores dos meus pecados e minha condição humana: ai! romântica... não acredito que escrevi isso! Mas sigo decidida. Quero ser eu, assim, literática; aquela que não consegue mover um dedo sem ameaçar os ares com um verso ou qualquer graça verbal; e que chora até com jogos lúdicos de Leminski e Caetano Veloso.

          Escondi por quase duas décadas um sentimento, como se fosse crime. Nada conquistei, só atraí uni-versos que pude traduzir em textos, talvez de qualidade duvidosa: Facecoisas, Instacoisas... diria alguém mais crítico.

          Eu já sabia desse meu lugar, o endereço do encantamento, do meu encontro com o que há em mim de mais humano. O amor parece que efetivou minha escolha e me ofertou um contrato vitalício nesse patamar confortável, onde bate uma corrente agradável de vento e eu me deito em minha rede entre livros, alguns petiscos e uma garrafinha de suco ou Cula-Cula.

          É um lugar de pobre mortal que me faz feliz. Um lugar sem mapa, que não se encaixa e é só meu. Um lugar em que leio, assisto e existo sem chamar atenção. Curto uma vida totalmente anônima e até operária na construção permanente de mais um degrau que me leva a outro patamar mais alto e mais outro...

          Não é fácil essa construção. É uma busca, um movimento imperceptível. É coisa de quem recusa o território árido e, às vezes ártico, de uma sobrevivência sem pé nem cabeça. Coisa de quem sabe que não está aqui para comer e sofrer, mas vi-ver com todo um significado que implica emoção, êxtase, hibernação, viagens galácticas que nenhum transporte da Terra me permitiria, e é isso o que mais se adequa à atitude de ser, por isso eu voo.

         As contas me obrigam a alternar o cenário e me arrastam para a estrada. A boa notícia é que sempre sobra um cascalho para mais um livro e um grau de vinho tinto porque não dá mesmo para viver só de fofoca e de pão dormido, né?
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 12/08/2025
Alterado em 12/08/2025