Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
Escrever é preciso
          Annie Ernaux não faz literatura, disseram. E agora? Preciso escrever porque escrever é  preciso. A palavra me eleva, me leva para um lugar seguro, desativa o meu modo reboque e, ao mesmo tempo,  preenche e esvazia meu imaginário para que novos mistérios ocupem meus espaços liberados, antes tomados até por prateleiras cheias de sapatos.

          Não é seguro pensar em sapatos e latas, embora eu seja apaixonada por calçados e embalagens. Se bobear, gasto horas das parcas 24, que tem um dia, atida em designs e suas armadilhas que me fazem  meter a mão no bolso. Quando escrevo, não acontece isso. Geralmente, me aninho em meu fofá, segura, como se estivesse de capacete e antolhos para não ver coisas concretas demais. Às vezes, estou entre as louças da pia e o celular estrategicamente posto junto à porta da cozinha com as teclas prontinhas e afoitas, quase ante os meus dedos. No meio de um cotidiano rotativo e uma vida atrelada a afazeres simples, diários,  que consistem em cortar, descascar, levar ao fogo, enxugar, armazenar, sinto que um portal mágico me acompanha e quase que me arrasta. É verdade que não quero atravessá-lo no mais das vezes. Se vou, me ausento demais... subtraio do lar, literalmente, minha presença em busca de literariedade. E nem sei se vale a pena, se escrevo alguma coisa que preste. Mas como não falar com as teclas? Como não contar a elas minhas estórias e, perigosamente, cair na tentação de postá-las. E postar!

          O meu sonho alfabético é ter o dom de transformar palavras como um Machado, o nosso Rei Midas, escultor de contos e romances. Mas não gosto dos rigores críticos.  Só o Machado é de Assis. No entanto é preciso escrever. Não importa qual o peso e matéria da coisa que vai formando a ponte construída com meus cacos atirados em papéis ou telas quase que de forma peristáutica. O emaranhado mental precisa ser desfeito, transformado em elos que vão produzir colares de cordas, cascalhos e pedrinhas periféricas. É nessa hora que a cabeça esquenta e até que eu gosto de sentir o caldeirão mental fervilhando, transbordando sopa de letrinhas no lado oculto da minha boca faminta e sedenta.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 07/09/2025
Alterado em 22/09/2025