Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
O perfil de um certo passageiro
          Eu sou dessas: não creio que inspiração é coisa exclusiva de escritor. Mais inspirada é uma certa turminha que gira em torno dele - os satélites naturais dos trovadores e prosadores das redes de Internet ou páginas de livros.

          Um diz que isso - esse negócio de escrever - é um sonho arriscado que pode acabar em pesadelo e fome. O outro pergunta se dá dinheiro. E tem também uma parte de investigadores que vai dar seus pitacos sobre a estrutura do texto sem o menor conhecimento. Então, se o autor, só de sacanagem, cita a repimboca do beleléu, a banca toda dos doutarados treme. Os queridos adoram umas frasezinhas pornográficas, mas são avessos aos brinquedos da prosa e da poesia; são uns caras sem graça e indispostos aos achados e joguinhos textuais. Eles querem o sentido da coisa, saber do "pra quê que serve", e vão tentar encontrar o conceito da repimboca nos beleléus do Google, até chegarem a uma análise teórica que vão expor nos comentários.

          Impossível também não falar dos preocupados conselheiros que não resistem a diagnósticos e orientações para o infeliz do autor. O pobre está longe de ser o eu lírico da problemágica inventada, mas vão achar que ele, o coitadinho, deve procurar aquele psicólogo que salvou a filha de um amigo do suicídio. Estes, geralmente, encerram seus comentários com uma daquelas frases consoladoras que afirmam ser a vida assim mesmo.

          Enfim...

          Engano pensar que o poeta ou escritor vive no orbital das estrelas falantes e perfumadas. Escrever é um ato de resistência, de ainda procurar flores - apesar de todas mortas, representadas por suas pétalas ressecadas nos jardins abandonados, cercados de arame farpado e repletos de espinhos.

          Mas, cá pra nós - só pra nós, tem sempre um cara desse perfil que não pisa nas entrelinhas do texto, entretanto não rola a postagem ou nem salta do livro. Sua função é botar defeito. Chega ao cúmulo de dizer  que esse negócio de literatura é a maior bobeira e que o tal do Machado de Assis é um velho debochado, analítico e detalhista, um verdadeiro saco. Nessa hora, caro leitor, eu pulo de onde estiver. Se for aplicativo, voo pra outro; se for palavra escrita, digo ao piloto:

          "- Para o livro que eu quero descer!"

          Não compartilho qualquer tipo de viagem literária com esse genuíno representante da cegueira.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 11/10/2025
Alterado em 11/10/2025