Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
Uma pergunta sem fim...
          A ideia do infinito me desfaz em mil pedacinhos como acontece com a noiva cadáver no filme. Não existe questão mais enigmática e sem resposta do que essa. E não adianta insistir na pergunta e nem tentar entender o suplício. O resultado é enlouquecedor e bem mais complexo do que achar a estátua de Minerva no Labirinto da Villa Pisani. Pior é que eu gosto de Astronomia. Tanto que, mesmo em estado quase anormal, beirando ao surto, persisto na leitura a ponto de alguém precisar me arrancar das mãos o livro, antes que seja necessário chamar os bombeiros.

          Não há o que pensar de algo sem fim, começo e meio, sem outro lado nem de lá nem cá nem lado a lado como nos boleros. É engolir a informação e amém, fim.  O negócio é seguir na confiança cega sobre o fato, fingindo aceitação e entendimento como eu fazia quando tentava imaginar uma reta infinita sugerida por minha professora, já na primeira série. Feito Galileu, eu concordava que via, mas bem que havia um rabinho fino da jiboia que findava nos limites da minha mente curta.

          O infinito, pelo que tenho lido, é como se fosse um oitão deitado em lugar nenhum e vai indo... indo... sem vizinhos, eternamente. Mas e a eternidade? É outra questão que remove as entranhas. Segundo mil doutrinas, a vida eterna é certa e seus fiéis juram que é o único caminho. Quer dizer, então, que eu faço parte disso para sempre e não vou ter um "THE END" que possa selar com letras douradas o gran finale da minha história.

          Com pouco mais de meio século neste planeta, minha alma (de artista?) ainda não sabe o que está fazendo neste barril de pólvora. Não era para ser assim, mas cá estou eu, ora tapando os ouvidos, dobrando as esquinas correndo, procurando o paredão mais próximo que me livre de outro tiroteio sei lá de onde. E nessa arena sem fim, nem a própria vida tem gerado vida com tanta gana como eu tento, transformando, reacendendo a chama, remendando pedaços. Sou uma folha desesperada renovando a matéria-prima para não cair do galho dileto para um indesejado chão.

          Enfim... é um disparate, admito, a preocupação com  métricas que nunca vão alcançar todas as distâncias além do que pode ser visto. Portanto, desisto de pensar no tamanho do infinito - ops, foi mal... Mas espero que ele seja líquido e em algum momento escoe no buraco da Alice ou do coelho. Quero, sim, um musical eterno em que eu possa ser gente. Quero viver uma love story, flu-ir over the rainbow e dançar na chuva, quem sabe de braços dados com Gene Kelly. Sou mais uma existência sem lógica do que uma vida sem sentido a serviço de uma minoria asquerosa e sem escrúpulos.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 04/11/2025
Alterado em 11/11/2025