As armadilhas de uma cidade
Tenho a mania de exaltar meu fofá. Eu moro nele, e dele vejo tudo: da rua a patamares e horizontes. Mas gosto também de pôr os pés no chão e andar pela cidade. E mesmo que minha saída seja algo totalmente fora de um contexto poético, como fazer compras de mercado, não resisto a lançar meus olhares arcoirizados pelos cantos em que passo.
É incrível essa cidade! Todo lugar tem multicores. Para mim, prevalecem o azul e o verde. Até o lixo, se é uma coisa feia, basta a incidência do sol sobre ele e pronto, deixa de ser qualquer lixo para ser o lixo dourado da cidade do Rio de Janeiro sob um céu azul ou estrelado quando, à noite, um pedacinho do céu é entornado em suas aguinhas fétidas, causando nele, dessa vez, um efeito prateado.
Quando ando nas ruas, apesar do medo, corro perigo porque a natureza é uma armadilha em que eu caio facilmente. Quando mais nova, tinha um olhar assustado, sempre tendencioso a focar o lado underground dos bairros e pessoas - o que tanto me deprimia. Hoje, não. Sou traída demais pelo encantamento e me empolgo, me deixo arrastar para onde está a beleza e esqueço os perigos. O mar, um ser imantado e dominador, é o maior exemplo disso. Em mim, só cabe ele. Os outros elementos da paisagem evaporam quando ficamos frente a frente. Se tem mar, tem eclipse, e eu me afogo nas ondas. Elas me incitam, não para segui-las, mas para eu entrar em movimento também. O mar é muito inspirador e me fortalece, me leva além, faz brotar em mim desejos. Depois de olhar o mar, sou capaz de quase tudo como se vestisse a capa da Wonderful Woman ou, dependendo da atmosfera, um manto misterioso que sempre me faz perder a memória e o endereço.
O Rio tem uma natureza festiva e é tão vibrante que, ao andar pelas ruas, tenho a sensação de felicidade à espreita. Parece que vou cruzar uma esquina e encontrar tudo o que eu desejo e que me fará feliz pro resto da vida.
Pena que seja uma cidade dominada pelo crime. Não fosse isso, seria perfeita com suas inúmeras paisagens cuja beleza dialoga com a nossa alma. A estética natural dessa cidade é uma espécie de lei determinada pelo além. Chego a pensar que o Princípio Inteligente deixou para criar esse lugar na Terra por último, e concluiu sua tarefa com muito sucesso e requintes de um gran finale: o Rio de Janeiro é a arte-final da criação.
Entretanto… estou disposta a abrir mão desse reino por um lugar seguro. Estou muito velha para cair nas armadilhas de ilhas sinestésicas e feiticeiras. Não sou Ulisses para enfrentar ciclopes em versões tão belicosas que espantaria Homero, e não tenho a menor vocação para ser uma Penélope… esperando… esperando por um milagre até quando…
Confesso que, ao escrever, sou um pouco Penélope, mas vou além: escrevo como quem transborda todas as mulheres fortes que criaram vidas com as mãos e forjaram seus destinos. Escrevo como quem borda, como se pudesse fazer surgir do novelo um novo mundo.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 28/11/2025
Alterado em 29/11/2025