Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
Educação de meninos: uma nova perspectiva humana
          Não estou lembrada de nenhum segmento da minha vida sem testemunhar marcas de brutalidades físicas ou psicológicas sobre mulheres de todas as classes sociais. Esfaqueadas foram duas, completamente mortas sob fúrias machistas por motivos banais. Uma era linda demais. Tocaiada pelo marido, foi atacada após descer do ônibus, pouco depois do ponto. A outra, mãe de cinco filhos, decidiu tocar a vida em frente e foi indo muito bem. O parceiro não suportou sua caminhada ascendente e derrubou violentamente seus patamares futuros,  fechando-lhe definitivamente o portal da  vida.  

          Uma delas aderiu a minha memória para sempre. Foi no interior onde nasci e vivi meus primeiros anos. Eu era uma criança, ninguém nada me disse, mas eu sabia.... Enquanto rodeava seu leito forrado com lençol manchado de sangue e estampado de hematomas, perguntava ao meu coração de menina  se o amor era mesmo aquilo. Mais adiante, em um espaço urbano, aqui na capital do Rio, soube na vizinhança que Dona Jurema, algemada, tomada de pânico, invadiu a casa de uma família. Nem deu tempo de alguém acudi-la. O marido enfurecido aterrizou no ambiente com sua capa implacável de macho e resgatou sua presa como se ela fosse uma fera do seu zoológico. A pior parte da cena é que ninguém se manifestou em nenhum momento. Viram com naturalidade a vítima algemada em prantos.

         Paralelamente, outras mesmas histórias me chegavam por jornais e TVs. Teve o assassinato de Ângela Diniz, de uma juíza e mil outras sem nome: mulheres mutiladas, psicologicamente prejudicadas...  mulheres que tiveram de conciliar trabalho, filhos, afazeres domésticos; e as que, por não poderem, esqueceram suas vidas junto ao material de limpeza na área de serviço.

          Chegamos a um patamar cultural em que as ideias estão clareando com efervescência. É preciso incluir, nas ondas atuais de pensamento, as inúmeras questões masculinas erroneamente cultivadas ao longo do tempo. Os meninos precisam de uma orientação a partir de uma nova perspectiva que os torne seres humanos e não guerreiros emocionalmente restritos. Talvez aí esteja a chave que vai entregar às mulheres um mundo novo em que possam sobreviver e crescer sem se tornarem vítimas da fúria masculina.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 05/12/2025
Alterado em 06/12/2025