Palavra, meu brinquedo favorito
Quando eu era menininha não brincava de bonecas. Elas eram enfeites da minha cômoda metida a Luís XV. Enquanto eu me divertia com as palavras, via que elas me olhavam com ódio e toda espécie de rancor dos rejeitados. Uma delas era médica; e a cara dela, um diagnóstico completo com o meu endereço e o número do meu CEP.
A história tem seguido assim. Foram as bonecas, vieram os incomodados. E eu continuo no meio escrevendo. Mais das vezes, sou ignorada. Escrevo como as abelhas exploram as flores e produzem o melhor dos alimentos, pouco interessadas em saber pra quem, pra quê, por quê... Escrevo e pronto - embora o resultado não seja tão eficaz quanto o mel das abelhas.
Gosto de falar de tudo, ouso falar mais de amor porque o tenho em todos os meus sentidos. Se eu atolar o braço em meu baú de pandora, é claro que vou levar uma mordida das mazelas que eu cultivo. Sou humana: tenho medos, dúvidas, anseios... mas nada que o amor não possa cobrir e me livrar do mal a cada hora. Ainda me encanto com o movimento sinuoso e sensual desse manto translúcido que me segue pelas ruas. É ele que me faz ter as mais lindas sensações, ilusões e me leva a acreditar que, nas curvas do caminho, um pedaço do meu sonho pode surgir, do nada, e correr na minha direção.
É preciso entender que o amor é cósmico. Não está no meio das coisas que a gente sente e que nos levam para o psiquiatra. E é justamente por isso que devemos cultivá-lo no peito em gotas diárias e não confundi-lo com o que corre no sangue venoso. Já recebi conselhos de muitos incomodados. Que não vale a pena isso, aquilo... E só comentaram após ler algum texto que escrevi. Só por isso. Não vivo por aí reclamando ausências. Não perco o meu tempo tentando me libertar de um sentimento que me refresca e me aquece. Seria o mesmo que dispensar um órgão que me mantém viva. Nunca vou fingir que não amo nem forjar novas histórias, só porque não fui correspondida. Não agirei com o amor feito uma esfinge. Prefiro continuar incomodando os prisioneiros do quadrado com minhas linhas e entrelinhas.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 07/12/2025
Alterado em 07/12/2025