Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
Fim de ano
            Preciso me convencer de que não foi, não passou, não morreu, não fechou. Preciso confiar na fluência das possibilidades. O impossível é hediondo pra mim. Por que não pode? Impossível é entender limites. Não poder é impossível.

          Foi-me extirpado tanto o que eu não quis que não fosse. Foi bombardeada uma ponte que eu queria atravessar. Foi proibida a entrada, a passagem. Foi detonada a plataforma; o trem me traiu, conectou-se a distâncias fora do meu alcance, do meu campo de visão. Partiu.

           Nunca mais eu queria dizer "Nunca-mais". Queria dar continuidade às escolhas que fiz, ao que eu preferi. Não queria substituições. Eu mereço quem e o que amo, mereço quem e o que quero. Nada que desejo tem preço nem está no mercado, vale só pra mim. Mas no mercado comum da sorte, ao que estamos submetidos, como obter? Não é nada que possa ser imposto, içado, arrancado, arrastado, negociado. É uma questão casual de encontro em um mundo cujo poder econômico espalha as pessoas, impõe opções únicas, vias. Ninguém quer ir, mas todos vão.

          De certa forma, eu não fui. Fiquei olhando, em  uma sádica via-crúcis, a procissão homérica,  sem sentido, dos que rezam e dão a vida por uma minoria em troca de existir. Gente que desistiu da dignidade, humanidade, individualidade... Gente que abriu mão de um amor. Deixou que decidissem suas vidas. E o que é pior: deu poder a facínoras para nos lançarem bombas e nos impedir.

          Então escrevo. Escrevo para fingir, continuar, ressuscitar ou não morrer também antes. Escrevo para suportar e desejar que o mundo ainda possa ser feliz.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 22/12/2025
Alterado em 22/12/2025