No supermercado
No centro do estacionamento de um supermercado, a criatura se deslocava até os clientes que chegavam e saíam por portões diversos com os olhos pregados no celular. Fosse possível representar seus passos com o desenho de uma estrela, seria preciso traçar nela muitas pontas de tamanho irregular.
Eu estava sentada em um banco, junto à porta, e via sua caminhada resiliente, sempre contando a todos e todas a mesma história e pedindo ajuda.
Foi assim mesmo comigo. Disse que dependia de um remédio e que, sem ele, ficava sujeita a convulsões. Fiz como todas as pessoas, disse que não tinha dinheiro. E não tinha mesmo. Uso cartão. Mas a geometria agonizante dos seus passos, rumo à indiferença, mobilizou minha consciência.
Gritei por ela e perguntei se o remédio não tinha no SUS. Disse que não.
- É caro? - perguntei.
- Custa 18 reais.
Daí, ofereci ajuda com uma comprinha que fosse. Recusou. E vendo que nossa conversa não tinha futuro, tratou de retomar a abordagem aos inúmeros clientes que chegavam e depois iam embora com suas ecobags repletas de compras e uma quantidade ilimitada de "não!" em suas bocas.
Se perguntassem a eles qual era a cor da roupa daquela moça, ninguém saberia dizer. Nenhum deles tinha olhos, pelos menos para ela.
Falam tanto em desenvolvimento, tecnologias... mas nossos passos se distanciaram muito das ideias humanistas que apontam para os valores éticos e respeito. Está cada vez mais difícil resgatar algum ponto de luz nesse universo de sombras e algoritmos.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 26/01/2026
Alterado em 26/01/2026