Mãos
Um fato curioso da minha adolescência? Tem. Alguém falou que eu era tão comportada que parecia doente. Alguém que esperava o mesmo comportamento de todas as meninas. Se a grande maioria namora o carinha mais bonito da escola e vai pras baladas todo final de semana... se bebe, baba... se isso e/ou aquilo... eu deveria fazer o mesmo.
Até hoje, por que não gasto minhas parcas 24 horas pensando em brincos, brinquedos e babados? Adoro sapatos, mas não gosto de falar deles. Prefiro falar do gasto que faço das solas flanando por aí, ao vento. Aliás, nem prefiro falar. Melhor rimar, relacionar, escrever parágrafos e parágrafos sem fim. Pode ser coisa de alguém que pensa ser poeta. Mas é também uma coisa dos meus sentidos com objetos naturais e artificiais.
Tenho uma caneca da minha avó - herança da minha mãe. É do século XIX. Gosto de ver a cor dela, o modelo dela; é diferente de todas as outras. Gosto de pensar sobre quem a produziu, como foi...
Tenho também uma estante enorme, repleta de livros...
- Eu jogaria isso tudo no lixo! É tudo fora de moda! - alguém falou.
Sou muito chata mesmo, do tipo insuportável para aqueles que não se relacionam bem com diferenças. Não são as coisas que me movem. São suas almas, suas energias, sei lá... tem uma coisa nas coisas.
O arvoredo arrancado do meu jardim. Ele importava pra mim, porque era fonte de beleza para minha mãe. Não sei exatamente o que se passava em seus olhos quando se encontrava com ele, mas sua bela expressão me dava força para enfrentar a morte, se preciso fosse, para mantê-lo ali, no nosso jardim. Fui ao terreno baldio e o resgatei para devolvê-lo a mesma covinha em que vivia. Não poderia abrir mão da sua existência. Suas flores eram vermelhas, sempre nos chamavam. Havia uma relação desse arvoredo com as luzes do dia, os beija-flores, o vento e o silêncio noturno, quando ficava estático, tão quietinho que parecia sem vida.
Tinha um coqueiro na rua. Não era meu, mas havia um comprometimento sério entre a dança de suas folhas e eu e a vida. Era um aceno verde de galhos, marcado amiúde. Ele sabia que eu estava na janela, olhando pra ele. E sem aquele coqueiro, o mundo não seria o mesmo.
Sei que por isso também sou um tanto acumuladora. Vejo as pessoas nas coisas que elas deixaram. Um pote esquecido propositalmente, uma jiboia, um pacote de colheres, são uma extensão da amizade e de uma convivência não mais possível. Estão neles as risadas, a voz representando o ausente.
Mas, sim, sou muito desagradável mesmo e posso ser magoada profundamente se alguém extirpar do meu convívio a colherinha que me deixou uma amiga; a caixa com a assinatura do seu nome. Toda vez que vou ao armário, gosto de rever a mesma cena das queridas tralhas misturadas e caídas que não me canso de rearrumar.
Não gosto de mãos que apontam e desorientam. Mãos que excluem, atiram, extirpam arvoredos do campo de visão de mães alheias; que vestem meninas do mesmo jeito. São mãos sem quintal e jardim que, em seus campos de concentração, cultivam e semeiam ervas daninhas que exterminam o que há de mais humano e toda forma de natureza da vida. É dessas mãos que nascem todos os movimentos contrários à natureza humana.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 01/02/2026
Alterado em 02/02/2026