Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
No Modo Espera
.
          Eu estava ouvindo "The Long and Winding Road" e comecei a chorar. A beleza dessa melodia, mesmo sem letra, mexe com minhas entranhas. Desliguei o Bluetooth, guardei os fones. Hoje não é dia de ouvir música. Tô triste e não tô a fim de fazer pose nas molduras. A cabeça tá cheia de cenas grotescas no BRT, e eu tô sem nenhum motivo pra ir e rir: a gata mordeu a boca de outra gata, o rato roeu a roupa do rei de Roma e meu lado de cá está cada vez mais pra lá do outro lado de mim.

          Qualquer um vive, não importa como — pelo menos é o que parece, concluo. Quando ando pela rua, vejo tantas pessoas plantadas nas calçadas hibernando, vejo criança largada... Sei de uma moça que só anda nua, não aceita nenhum tecido que não seja a própria pele. Seus olhos não miram as convenções sociais, talvez só enxerguem os vultos do seu próprio universo delirante. A vida é uma ópera em que tudo acontece simultaneamente e escorre para um tonel como se fosse, ora a poção amarga de um ogro, ora a poção mágica de fadas deliciosamente loucas. A nós compete, obrigatoriamente, beber cada gota. Mas mesmo amarga, quem quer largar essa vida? Pode passar um cometa, surgir, do nada, uma nova Elis, e até um "novo Machado" que nos faça reagir a cada sarcasmo; que nos faça pensar, finalmente. Por ele, eu viveria uma eternidade, só pela catarse de vivenciar, em seus textos, a hipocrisia do comportamento humano desmascarada entre tantas quinquilharias que ofuscam o espírito. Eu amo Machado! Se ele aqui estivesse e soubesse de mim, poderia dizer, sem dúvida:

"— A Senhora Ki me amou por mais de meio século, 219 contos e 10 romances...", só que, dessa vez, sem sarcasmo.

          Mas devo pedir desculpas ao leitor, caso aqui esteja. A digressão é um recurso narrativo que adquiri com o mestre — coisa que contrasta com os "bullet points mentais" e vícios imediatistas dos cérebros hiperestimulados de hoje. É compreensível, mas... convenhamos, se na virada do século XIX a pressa do leitor folhetinesco já era um corte nas asas de novas narrativas, imagine agora. Aposto que você está aí, com sede de teclas e sem nenhum incômodo por me deixar falando ao vento. Saiba, no entanto, que uma verdadeira rede de pano com franjas brancas, próxima a uma palmeira e suas folhas abanando a sua face, pode lhe fazer muito bem. Talvez eu não esteja sendo cautelosa nessa recomendação. Usar rede e face na mesma frase, em um texto, não deve ser muito bom para um livro atualmente.

          Tempos de Wi-Fi e suas redes...

          Preocupa-me pensar se ainda é possível alguém mover braço, mão e dedos para dar continuidade à leitura. Sim, você precisa fazer um gesto de pinça para virar essa página, por favor. Espero que o faça. Eu poderia também estar fazendo muita coisa agora. Poderia estar matando, mesmo que fosse o tempo; ouvindo o último hit americano, como faz todo mundo; poderia estar com olhos e ouvidos pregados em algum tipo de tela, em busca de mais crueldade e estupidez dos trastes & trumpes... Mas não, estou aqui como uma galinha, chocando palavras, letrinha por letrinha, na intenção de deixar quem lê a par de todas as minhas firulas verbais, seguidas de queixas. Corro o risco de ser cancelada, talvez na primeira página ou até mesmo na lombada do livro. Para isso, muitas vezes, basta o título.

          Enfim... Retomando a parte do “novo Machado”, essa ideia não me anima muito. Pode ser também que seja mais um grande acontecimento que escorra pelos dedos. Tudo está girando em rotações intensas, não há tempo para nada, querem chegar ontem não sei onde... Quem mais sofre são as palavras, essas aladinhas que nos levam para o reino da maionese, rumo às batatas que tornam o imaginário obeso mórbido, sem necessidade de bariátrica. Para ter mente rica, é preciso semente, e das melhores safras, com poderes fermentativos que façam crescer a massa cefálica e dar conta de preencher as lacunas mentais. É isso o que mais se pode esperar de cada manhã — eis minha justificativa para viver a vida no modo espera.

          Vamos?
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 21/03/2026
Alterado em 01/07/2026