Quantos pontos e sabores tem a submissão feminina?
Dá um certo desespero observar os inúmeros trabalhos manuais produzidos por mãos femininas ao longo dos séculos. São incontáveis. Nas imensas roupas de cama, cortinas... quantos pontos, quanto tempo, quantas horas dedicadas em cada laçada, traço, corte?
São bordados delicados, minuciosamente trançados com finas agulhas, que até o dedal ser criado, deve ter ferido muitas. E ainda é possível deduzir algo perturbador no empenho da execução de um trabalho amiúde em cada tema escolhido, como ramo de flores, todo formado luxuosamente e minuciosamente por detalhezinhos, em que também se vê a busca incessante da beleza - talvez porque soubessem que a manifestação dela em seus trabalhos tornasse mais fácil contemplar o belo em seus confinamentos.
A mulher, com suas restrições históricas, teve milhões de horas disponíveis para desenvolver diversas culturas que foram difundidas nos lares. Formaram um padrão de decoração e de cuidados domésticos. Adornos, mimos, culinária, tricô, crochê... configuram um trabalho de Penélope que evoluiu no tempo, em proporções opostas à caminhada evolutiva das próprias criadoras, num reino social dominado por mãos de ferro, daqueles que sempre tiveram o domínio e exclusividade plena de direitos. Boa parte desses, produziram arte. Quanto ao trabalho feminino, embora depreciado até certo ponto, ao se tornar público, teve seu valor atribuído a um chef ou estilista.
É pena comprovar que essa imagem da Odisseia é uma cópia da triste realidade a nós imposta. A mulher não esperou exatamente alguém - filho, marido... esperou talvez se livrar de uma opressão e insuportável monotonia, esperou alguma coisa que, na verdade, ainda esperamos. Quem sabe existir com todas as possibilidades individuais que implica esse verbo e esse também abstrato substantivo: existência? E o ato de existir é um direito que nos foi concedido por um Princípio Inteligente que está muito acima de qualquer poder aqui estabelecido e imposto.
Nas eras de repressão absoluta, através dessas culturas gastronômicas e ornamentais, parece que a mulher encontrou o botão de emergência para suportar a espera de passar cada segundo do relógio. Enquanto os homens corriam contra o tempo, estagnadas, elas esperavam pintando, bordando, criando pratos, limpando... Coisas que nem eram para inspirar admiração alheia. Foi tudo produto de opressão, solidão e tédio; criações consequentes de um tempo vivo que matava de espera as infelizes.
Tem também o tempo de abandono, de doença e dores; de violências e violações. Tempo em que mulher não falava, e seus sentidos eram focados e sufocados em passividade silenciosa, profunda.
Nasceram, neste contexto, lindas e deliciosas culturas que exalaram dos poros desesperados femininos, como o perfume do sândalo que adere ao machado que o fere.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 23/03/2026
Alterado em 24/03/2026