Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
A Fotografia
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          Porque somos ariranhas seminuas nas praias do Rio de Janeiro, achei normal fotografar três obras da Literatura Portuguesa em minhas coxas. Mas quando vi o resultado fotográfico, não gostei. Achei que o cenário destoou completamente dos clássicos monumentais, expostos de maneira tão vulgar em meus membros descobertos.

          Pelo menos para mim, pareceu que meu sinal da coxa esquerda chamou mais atenção do que os livros. Toda vez que eu via a foto, me sentia uma protagonista fofa, como tantas outras fisgadas e arrastadas pelas correntes comuns e sempre previsíveis dos padrões midiáticos, repletos de pernas e bocas disparadas em revistas e telas pelo mundo. Ainda bem que os clássicos portugueses têm um poder muito forte e, geralmente, me levam para os mares de Camões, cujas correntezas inspiradoras sempre proporcionaram a expansão mental de mim mesma e, ao mesmo tempo, também me ancoraram - desta vez aos pés dos barões assinalados, aqueles de Os Lusíadas.

          Então, comecei a divagar...

           Longe de mim ser uma varoa, mas nasci assinalada com uma folha e mais dois sinais, todos no lado esquerdo do corpo. Claro que eu tentei entender o porquê desse fenômeno esquisito! Um dos resultados das minhas pesquisas foi o atavismo, e toda a minha investigação foi nos livros. Nessa era, não havia Internet. Para ter o mundo aos pés, só mesmo dormindo.

          A explicação básica para o Atavismo está na ciência espiritualista que afirma ser o próprio espírito, a reencarnar, o acompanhante e coprodutor do seu corpo físico. Como minha mãe tinha o desejo de sentir o cheiro de uma folha, passou a andar com ela no sutiã. Nunca soube de maiores detalhes fitoterápicos a respeito disso, mas devo ter achado bacana e tratei de tatuar essa folha em três partes do meu corpo, antes de ocupar o território.

          Nunca soube de uma criatura neste mundo que tenha sido brindada por tal fenômeno como eu. Mas depois de mil conjecturas e leituras para entender meus adornos, veio a matemática do tempo e uma espécie de espelho luminoso com controle remoto. Ambos me trouxeram a informação de que uma lourinha muito talentosa também tinha uma pinta. E adivinha onde? Na coxa esquerda! Os chiados do tal espelho tinham um eco que também falava da sua beleza sem comparação. Mas, peraí, espelho! Isso aqui não é um conto de fadas e eu não sou madrasta nem uma bruxa feiticeira. Não mandei matar ninguém que vivia andando de táxi pela floresta selvagem urbana. Mas fiquei danada por saber que todos os louros de uma tatuagem natureba, na coxa, ficaram para ela, a Angélica, que nasceu depois de mim. Por que, então, meu Deus, Zeus, Poseidon...sei lá? Foi essa a pergunta que fiz pro Divino e pra geral do Olimpo, logo que me dei conta de uma sósia de pinta.

          Nessa fase, eu vivia mergulhada em existencialismos próprios de uma quase-cantora, com pretensões de um dia subir aos palcos e deixar fluir na garganta as mesmas ondas musicais de uma Lígia, sereia de voz clara e doce, enfim... citar Gal Costa dá no mesmo. Então julgava que, sob as luzes da ribalta, uma pinta dessa na coxa esquerda cairia muito bem; seria um lindo complemento para um vestido vermelho, tipo cavadão, mas... os danos emocionais levaram os meus recursos vocais e a lourinha roubou minha pinta.

          Minha mãe sempre recomendou aceitação e resiliência para as coisas que não podemos mudar. Ou seja, se não der pra ir de táxi, vai de bus, minha filha! Então, decidi tocar normalmente a minha vida, pouco me importando se quem nasceu primeiro fui eu, a Angélica ou a pinta. Mesmo assim, ainda fiquei pensando... se eu tivesse tido a mesma sorte da lourinha... que dilema... eu poderia estar casada com o Luciano Huck e poderia cair de paraquedas no cargo de Primeira-Dama desta terra gentil! Pois o nariz do moço aponta contra a rampa do Planalto, de uma forma ameaçadora, já há algum tempo. Avaliando o risco, achei melhor pensar um pouco mais ainda... O Brasil é um país de manchas, onde afo-gados e deslumbrados avançam, cada vez mais, contra os lúcidos que tentam desenvolver uma mentalidade esclarecida e construir uma nação.

          Conclusão: ocupar qualquer cargo político, por aqui, é um negócio muito perigoso; melhor perder a primazia de uma pinta para a Angélica do que correr o risco de uma mácula histórica no currículo.

          Pronto! Problema resolvido.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 01/04/2026
Alterado em 25/05/2026