Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
Passaradagem
          Minha avó tinha o costume de dizer pra gente: "Deixa de passaradagem!"

           Tinha alma essa palavra e, sei lá, quantas personalidades. Para cada cena, um significado diferente. Para cada sentimento: um ponto, dois pontos, ponto de exclamação e final.

          Se era eu, correndo entre as galinhas no quintal, sob trocendas aves, que pareciam vigias do meu castelo, ela dizia:

          "- Entra agora, menina! Deixa de passaradagem!

          Se era meu irmão saindo pra farra:

          "- Juízo, hein! Não fica de passaradagem por aí!"

          Se era minha irmã após perder o namorado:

          "Fia, deixa de passaradagem... cê ainda vai conhecer muito moço bonito."

          Quando minha mãe, sua filha, se queixava de um problema, uma pergunta:

           "- Coragem, fia! Pra quê tanta passaradagem?"

           Era uma palavra bombril. Cabia em todos os assuntos. E chamava atenção pelo movimento e também pelo barulho. Como se fosse um festival de pios, um farfalhar de penas se espalhando no céu da boca daquela velinha.

         Eu tinha dificuldades para dormir e ficava às voltas com desenhos e livros. De vez em quando, ela vinha com um sorriso:  

          "Ainda tá acordada?"

           Dava pra ver uma interrogação na ponta do nariz franzido.

          Um dia, um batuque invadiu nossa casa, mas vinha de longe. Ela esticou o dedo indicador e disse:

          "- Ói! É canjerê!"

          Minha avó era o retrato da poesia, um mambembe ambulante. Saia rodada, comprida... com idade avançada, 96 anos, andava um tempão pelas areias pesadas sem dificuldades. Tinha olhos cinzas, cabelos que batiam nos joelhos, mas formavam um coque que parecia um bolo de casamento na cabeça.

         Naquele tempo, no interior do Rio, quintal era chamado de terreiro:

          - lugar extenso, de ver, de quarar, de asas, arco-íris, estrelas e  a dindinha lua;

           - lugar de matar cobra e distribuir milho... de colher folhas e frutas, de viver em êxtase sob cores, perfumes e sinfonia de bichos.

           Lugar de passaradagem e asas ocultas...  

           À noite, um suíno alado-além dançava mambo, feito um doido, e gargalhava... louco por uma fresta para invadir minha casa e me levar pra outro mundo.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 02/04/2026
Alterado em 04/04/2026