O Túnel de Clara
Era um túnel
Imenso
Com vários portais
Enquanto atravessava, ela ouvia um alarido
Era a conversa das pessoas, ao redor, à mesa
Fofocas, indignações, maledicências se mesclavam em sua mente
Pior era o encontro das interrogações, exclamações, interjeições,
vocativos: cada manifestação, como essa, era um estouro no alvo,
concentrado no centro de todo ser da criatura.
Era a Clara, a que falava com as paredes e pouco com pessoas.
No meio das entonações bombásticas das falas, ela se perdia.
No meio da roda, fugia.
Suas asas coloridas abriam
e a transferiam do túnel para uma tela, uma sinfonia,
um outro lugar longe dos falantes.
Parecia que o falatório tinha asas de inseto e antenas.
Seguiam Clara pelo túnel adentro,
a ponto de ela ainda receber o eco e as reverberações de chaves agitadas,
barulho de garrafas, rangido de cadeiras arrastadas e muita risadaria.
Mas suas asas eram poderosas.
Iam bem alto, até ultrapassar a barreira do som.
Ela só voltava pra mesa, quando seus colegas se retiravam.
Era automático: os portais do túnel fechavam,
ao mesmo tempo, que as pessoas calavam a boca
e saíam.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 16/04/2026
Alterado em 22/04/2026