O Mar de Clara
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Com as mãos cheias de conchinhas do mar e um embornalzinho lotado com muitas outras, de todos os formatos, e mariscos, a menina voltava para a casa dos tios correndo. Havia em seu peito uma paixão curiosa, cheia de vida, de vontade de ver, sentir, fazer e não parar de correr ao encontro do vento, que vinha, e da música que o rádio soprava no ar. Era tudo magia.
Ah, o cheiro do fumo de rolo que o tio Ló guardava em uma sala… Embora, hoje, não seja um bom assunto, o odor era delicioso, sim. Era em uma palha seca de milho que ele enrolava as lasquinhas fatiadas com canivete para montar um cigarro. Ao acender, perdia a graça. Contaminava a atmosfera, mas sem maiores prejuízos. Eram léguas e léguas douradas em volta, uma ilha verde sob um céu todo azul. Bastavam uns passos, além do fumante, e estavam salvos os sentidos para usá-los em todas as outras coisas infinitas em torno. Uma delas era brincar com os pintinhos, apesar das suas mães ciumentas e zelosas. Foram necessárias inúmeras bicadas para a garotinha entender que é muito feio incomodar os bebezinhos dos outros. Enquanto isso, a família formava uma plateia na porta para assistir à cena. Sua mãe, ao invés de acudir, é quem mais ria. Ria de se escangalhar, como dizia a vovó.
Na Barra de São João, o mar não é de brincadeira. Certa vez, cuspiu sua tia. Foi num descuido, enquanto molhava os pés e os braços na beirinha da praia. A onda, ao mesmo tempo que a levou, jogou para fora a velhinha, coitada. Foi um susto naquele dia!O mar é o lugar do encanto, mas nem sempre suas histórias têm final feliz, momentos puros de alegria. Há correntezas e diversos movimentos. Clarinha sabia disso. Seu pânico parecia uma previsão de possíveis cenas catastróficas, consequentes de tudo o que motiva a coreografia — cruel, às vezes — das marés inquietas e nervosas. Sentia muita pena das águas que não tinham sossego e mal podiam dormir em paz. À noite, quando o silêncio vestia o balneário, ela ficava escutando as conversas do mar. Era um som revolucionário que parecia arrebentar tudo o que ela amava ali. Tinha até medo de acordar e não encontrar mais nada, de tanto que as ondas brigavam como se conspirassem contra tudo o que não era líquido.
A primeira vez que viu o mar, chorou muito. Sua irmã, já moça, atirou os pés bem juntinho das ondas que estouravam em suas pernas e se desmanchavam na areia. A menina soluçava, achava que o mar era um inimigo que ia beber sua irmã todinha, com roupa e tudo. Passados poucos dias, não demorou para se recuperar. Nela, se fez logo, naturalmente, uma nova visão sobre o amontoado de águas azuis.
Era muito céu, muita areia, siris, tartaruguinhas e muitas conchinhas. Não havia razão para perder tempo com as próprias besteirinhas de criança. Ela sabia disso, sabia que valia a pena enfrentar o medo para desfrutar daquele universo marítimo e de toda a vida em torno. Era a felicidade mais azul que já se viu.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 23/04/2026
Alterado em 15/07/2026