Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
Um banquete ou altar do sacrifício?
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          "Siri recheado e o cacete" é um samba de João Bosco e Aldir Blanc. Uma letra genial e hilária;  uma espécie de crônica musical em que o til prevalece por se tratar de uma pescaria marcada por confusão, decepção, acidente no busão e muita frustração. O grande problema da história é que o "pescador", apesar do sacrifício e empenho da "patroa", joga o anzol mas não atinge o foco principal da pesca  que seria a boca do compadre Anescar. Mesmo assim, o resultado chega ao êxito de um banquete variado com fartas iguarias.

          Me lembro que, um dia, fui personagem de um cenário como esse. Foi na casa de uma coleguinha da faculdade. Estávamos fazendo um trabalho, e a boca livre foi inclusa. Entretanto... quando chegou a hora de irmos para a mesa,  percebi logo que, do reino da terra, só tinha arroz e feijão. O resto era tudo marítimo, e acho que até o pântano entrou no meio.

          Era um dia de domingo. Vi que a pescaria, ali, foi muito boa também, e gerou uma grande variedade de pratos esponjosos e gosmentos - a maresia era tanta que daria para corroer um piercing no nariz. Tinha bobó de camarão, peixe frito, torta salgada de sardinha, sopa de siri... e o famoso caviar que, ECA!, não passa de ovas de peixe e me inclui sempre fora de qualquer degustação em que esteja. Enfim, nem o arroz e o feijão escaparam de um toquezinho do mar,  com seus caldinhos marolentos e fétidos sobre o fogo.

          A primeira coisa que me deu foi uma ameaça de levitação, quase atravessei meus portais rumo a mares nunca dantes navegados. Eu precisava de um barco, um navio - uma nau serviria. Aí, senti que meu zoin já estava revirando, mas vi que um peixe gordo piscou o olho pra mim. Tentei manter inalteradas as minhas expressões faciais, mas pensei comigo: isso tá vivo. Foi mais que um caso de literatura fantástica; foi um filme de terror porque, depois de pegar um bronzeado a 200 graus, no forno, como é que aquela coisa ainda conseguiu estabelecer uma comunicação comigo? Aquilo só poderia ser de outro mundo. Cheguei a pensar que eu estava ante um altar do sacrifício e que eu seria incluída entre as oferendas aos deuses.

          Ocorre que, além de eu não suportar produtos do mar, sou  alérgica, até a última gota, a todos eles. Fiz um teste, uma vez, e deu edema. Eu  estava certa de que se eu comesse qualquer coisa ali, quer dizer, Dali - de tão surreal o tal almoço - eu morreria toda acolchoada por dentro e descamada por fora. Eu me transformaria em um monstro marinho, e a coisa não ia ficar boa pr'aquela cozinheira do navio fantasma, que seria a primeira estraçalhada do banquete. Diante de possibilidades tão intoxicantes, então, fui obrigada a contar uma história triste, enquanto minha "muy amiga" ria de mim e sua mãe não sabia o que fazer.

          Mas retomando a narrativa do samba, tem uma controvérsia entre o meu caso e o do compadre Anescar, o personagem da trama musical. O espertinho saiu pela tangente, alegando que o médico recomendou que ele bebesse até cachaça e comesse de tudo, menos os frutos do mar. Quanto a mim, não comeria nem se ele me obrigasse por decreto.

          Não é que eu seja ingrata nem do tipo que faz uma visita e, depois, mete o malho nos anfitriões pelas costas, ainda mais quando estes se dispõem a me servir um oceano em uma mesma refeição. Mas dar exclusividade a alimentos litorâneos, sem mais uma opção, em uma mesa, é complicado. Isso me deixou em uma situação muito difícil.

          Confesso que tive muita pena daquela criatura. Nasceu, cresceu, casou... e parecia totalmente desconectada da realidade, aérea, entregue à passividade. Foi pescada, presa em um anzol para o resto da vida. Antes de nos servir, ela entrou na sala para se incluir, mas o marido e a filha riram do seu vestido. Ela estava parecendo uma caipira, ele disse. Deve ter sido por isso que não mais a vi. Se afogou na cozinha - o seu altar do sacrifício - e mergulhou naquela peixaria toda para ofertar ao Deus da família, em agradecimento ao pão de cada dia.

          No samba do Bosco e Blanc, a mulher ocupa o mesmo espaço: "enche" de avisar, espanta três "sereias" no tapa, se empenha no preparo difícil do siri recheado para agradar um amigo ingrato que nem se tocou... É a "patroa", porque é a "faz-tudo", enquanto o marido é um malandro, um paquerador descarado que só quer zoação.

           O Aldir Blanc injetava uma dosagem perfeita de ácido em suas letras de humor. Ele era o fotógrafo do clique poético, um cronista do cotidiano brasileiro.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 28/04/2026
Alterado em 28/04/2026