Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
Vida
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          Do vigésimo andar, flutuou. Parou no décimo quinto. Ficou pensando... enquanto tudo girava em torno do seu corpo vulnerável,  sustentado no ar por moléculas desconhecidas. Diante do seu nariz, não tinha só a rua, o bairro, a cidade, o mundo. Tinha o universo todo.

          Vida foi a primeira palavra que veio - um nome tão existencialista, tão bem articulado com a Filosofia, que é melhor nem pensar nele. É um substantivo comum, mas não deveria. É um nome alado, pesado, impregnado de significado. Não é só uma palavra. É animação, uma ave que voa e leva...

          Sentada em um feixe de luz molecular, suspensa, ela via um filme passando. Via Sócrates, o mais famoso, mas tinha vários outros, feitos de pedra com algum detalhe em suas vestes gregas. Tinha uma parede inteira de livros. Mas seria preciso uma vida para entender o mistério. É. Não é. O que é, por Deus?! Não é o que cada um pensa ser. É  o que é. "E se não for o que eu sei?", pensou... Não queria perder uma vida para entender, pensar, saber.

          Em um átimo intuitivo, a ação desfalecida, ora refeita, entrou em cena para acudir, com suas asas velozes e ferramentas. Como em um jogo de varetas, não poderia tirar nenhum átomo da molécula. O jogo poderia acabar no chão. Até que, em menos de um segundo, a criatura decidiu heroicamente mudar de ideia: saiu de trás da janela, e, embora de costas, viu as ruas; sentiu as mãos e os pés. Percebeu, por fim, que a porta de casa não fazia parte da sua rotina há tanto tempo.

          A vida com seus conceitos profundos é um prato cheio para estudos. Mas, para todos os viventes, é movimento contínuo, rumo ao utópico; é o êxtase de todas as maravilhas que nos chegam através dos sentidos. É um presente.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 29/04/2026
Alterado em 30/04/2026