O fantasminha do ralo
.
No ralo da pia da cozinha, o portal hidráulico dos Nenes, mora um cachorro. Seu canil foi arquitetado por Lúdriguer, o mestre da arquitetura latinoca.
Situado em alguma parte do cano, o cãozinho late, o eco responde. Tive a impressão de que foram as quatro bocas do fogão, que exigiam um imediato cala-boca. Estavam cansadas de aquecer panelas do café e do almoço. Queriam um descanso. A cuba da pia também não aguentava mais tantas cascas de legumes, restos de comida e gorduras nojentas. Estava a ponto de morrer afogada sob a nova torneira linda de inox, que despejava, sem comedimento, sem dó nem piedade, a água corrente — sem falar na tortura daquele barulho de chuva recorrente e, depois, aquele cão inescrupuloso, digno de forno.
Seria um caso de Poltergeist, aquele cachorro no ralo?
Nikita, minha gata, desconfiou. Com a cabeça posicionada, aprumou suas orelhas para ouvir o que ele dizia; correu para o seu prato e comeu tudo que tinha, depois ocupou a caminha, que ganhou, e pegou sua bolinha, antes que o aventureiro saísse do ralo e ela entrasse pelo cano.
Ele continuou a latir. Eu disse "Chii!!" pra ele. Nikita disse "miau!", três vezes, e ele respondeu: "Vai vê vovó, vai! Vai vê!
No focinho dela, dava para ler a frase: "Fantasminha abusado..." Depois enfiou sua cara de esfinge entre as patas e mimiu.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 03/05/2026
Alterado em 14/08/2026