Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
Da menina que lia o vento
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          Desde menininha, gosto muito de escrever. Ficava encantada com os livros, sentia algo diferente de tudo o que eu sentia quando olhava as outras coisas. Não que esses olhares fossem insignificantes. Ao contrário, cheguei a ter um pico de êxtase quando, um dia, um tecido vermelho com bolinhas brancas flutuou do varal e pousou na minha cabeça. Fiquei louca nesse dia e nunca mais desvinculei o meu olhar de uma percepção poética, fui descobrindo a poesia das coisas assim, pouco a pouco, em cada sensação que o mundo e a vida provocaram nos meus sentidos.

          Mais tarde, quando revelei a intenção de publicar um livro, alguém disse que era um sonho. E falou na intensão de me afastar rapidamente do projeto. Essa pessoa tinha a intenção de me encaixar em sua vida, mas com uma tesoura escondida no bolso. Achei por bem afastá-la, e prossegui lendo o vento, com meu coração pescador e as asas intactas, preparadas exclusivamente para o voo.

          Não tinha parado para pensar que, desde novinha, não sonhei apenas com uma produção textual. Caminhei com as palavras por todo e muito tempo. Andei tanto que nem vi que estava sonhando. A cada passo, fiz um verso, reuni em prosa um novelo de lã que me arrastou para um labirinto permanente e sem saída. Fiz tudo sonhando e caminhando.  Montei um contexto de vida com base na construção de textos. Cheguei a pensar que não teria material para a montagem de um livro, mas não perdi tempo: ia para o trabalho escrevendo mentalmente, tomava banho pensando poeticamente... escrevi muito com os meus pés em cada pedaço de espaço que eu pisei. Ainda tenho na memória nitidamente muitas imagens que geraram fotos musicais e falantes de cada sonho. Aos vinte anos, enchia cadernos e mais cadernos involuntariamente, e hoje, mais do que nunca,  sou impelida às palavras como uma abelinha em sua produção. Até já poderia ter lançado vários livros,  mas me faltaram meios.

          Sonho não se torna real sonhando, mas caminhando. Exatamente como os ventos construíram em Vila Velha, de uma rocha, um monumento. Na minha última pescaria, um vento leve e carinhoso me conduziu a um passeio galáctico e, dessa viagem, vai nascer o meu primeiro livro. Breve, publicarei os detalhes da recepção.

          Vamos?
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 24/05/2026
Alterado em 25/05/2026