A Urgência das Cores
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Não posso saber do que acharam nem do que viram ou perderam. Não tenho tempo para nada. Nunca tive. Aos nove anos, já estava cercando os meus sentidos — não com muralhas marrentas, intransponíveis, mas com um universo de pontes libertadoras, aéreas, conectadas a um infinito estelar, verdes florestivos e asas... E desconectadas das sombras sem saída.
Ainda planejo muitas viagens. Tentei até fazer da pintura uma via de transporte; do violão, uma prancha em que eu pudesse deslizar nas ondas assanhadas dos mares. As pontas dos meus dedos não interagiram bem com os dois. Preferiram as canetas e muito mais os teclados que viabilizam todas as asas, em um leve clique, para a construção de tudo o que eu quiser. E não importa o que seja: um universo alado vai improvisar pousos de emergência e abastecer minhas nascentes.
Mas a música nunca me abandonou. Suas melodias aladas me levam de carona para um lugar de nuvens que me inspiram descanso, enquanto borboletas expõem uma coreografia galáctica tão difícil que nem dá para acompanhar todos os movimentos. Gosto de navegar nas correntezas melódicas. Nas pororocas, pulo com os peixes; nas marolinhas — mesmo de lagos artificiais —, descanso até que os momentos seguintes me façam boiar na balada mansa de algum rio deste Rio molhado, cercado de águas azuis... Minha vida é uma sequência de túneis marítimos formados por ondas carinhosas que, em giros de valsa, me carregam e me enfeitam de espumas. Gosto de pensar que este salão aquático é fruto de uma montagem suspeita com fins de sequestros relâmpagos dessa alma que a magia não esquece nem quando está dormindo. A tormenta fica por conta da tradução de tudo isso que a natureza poética me impõe, como se soprasse um pó de magia nos meus olhos.
Eu ainda estou me procurando, me encontrando e me perdendo. Tenho as mãos meladas demais, escorregadias de doces travessuras. É a festa da vida que me toca logo cedo, ao sol, ao céu, ao som. Pensa que sou, talvez, música e também me leva para dançar. Não há, em momento algum, nenhum tempo para quaisquer outras mãos me alcançarem, porque deslizo como ariranha; salto como um esquilo serelepe entre cipós que a dança do vento me atira, como se pudesse me elevar ao céu de Ícaro.
Às vezes, fico triste. Choro por tudo. Mas cadê o tempo? De grau em grau, vem a criatura com seu manto e me arrasta. Se eu não vou, ela vem, e me traz elementos raros, abstratos, montados em versos quase prontos. Por isso, não me chamem, não tenho tempo para nada, muito menos para os breus intensos que permeiam o mundo. Vivo afogada em cores. Muitas cores. Tantas que nem sei como dar conta de todas elas.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 04/06/2026
Alterado em 23/08/2026