A Visão do Abstrato em Questão
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É mentira que o sol nasce ou se põe. Tudo a respeito de suas idas e vindas é pura impressão, condição de tempo, de posicionamento... São extensas as limitações ilusórias que nos fazem crer nas aparições e eclipses do astro de fogo. Na verdade, ele está sempre no mesmo lugar, acreditem!
Nem tudo é possível ver, e nada deixa de existir só porque não vemos. A hora em que se perde algo do campo de visão é um momento de imprimir luz ao lado oculto da mente para fazer da dúvida uma convicção e, consequentemente, submergir na segurança da certeza de que, apesar de desfocado, ainda existe o que já não pode ser visto.
O sol está presente na noite, na manhã, na tarde e em todos os momentos da vida, mesmo em dias de chuva e tempo nublado. É na convicção — plantada no pensamento — que é possível habitar a existência de todas as invenções artificiais e criações naturais deste planeta, é nela que existe a visão total dependente de cultivo. Bem regada e adubada, ela tudo vê e tudo confirma. A visão foca o possível, mesmo dentro de um quadrado amplo. Mas a convicção, fruto de observação e estudo, sobrevoa, toma posse e detecta tudo o que nunca deixou de estar e existir.
Muitos são os adeptos de São Tomé. Só acreditam no que veem, embora os substantivos abstratos nomeiem tudo o que não existe concretamente — pois estes dependem puramente de nós mesmos para ganhar o mundo e existir. Como a fome, ela existe? Depende de quem não tem o que comer. Acredito que depende também do lugar que um ser humano ocupa na pirâmide social.
Em certos patamares sociais a coisa muda e complica mais ainda. Certa vez, o Excelentíssimo Senhor Presidente da República Ernesto Geisel negou existir miséria no Brasil. Com esses ouvidos que a terra tornará surdos, ou(vi) da sua própria boca, em rede nacional: "— Eu não vejo miséria no Brasil!". Fiquei indignada, claro, mas eu era ainda uma garota e, talvez, não tenha dado à sua frase uma interpretação mais razoável. Pode ser que ele não visse a miséria por ela ser um substantivo abstrato. Ela depende de um estado de carência e subtração financeira mensal para existir. Nesse caso, além do general, muita gente neste mundo — até mesmo hoje — pode não ver esse tipo de abstração em seus patamares de veludo.
Mas creiam, meus amigos, na existência permanente do sol e também das trevas deste mundo. Não, eles não fazem uma alternância de plantão. Enquanto a rotação da Terra impede que o astro mantenha entre nós seu brilho, as trevas permanecem absolutas no centro de muitos universos humanos que habitam este planeta.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 17/06/2026
Alterado em 18/06/2026