Refazendo as Cenas
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A vida é muito triste, muito difícil mesmo... eu sei. Quem conhece a Kem sabe de tudo o que ela vive na vizinhança, dia sim e no outro também. Sua vizinha é um tico de gente, baixiiinha, de olhos azuis, a cara da Liv Ullmann. Pois esses poucos milímetros bélicos de gente são suficientes para contaminar um condomínio inteiro de casas rodeadas de jardins. Vez ou outra surta: joga garrafas de uísque no muro e, para cima, um gato. Depois de uma cabeçada no telhado, o pobre se esborracha no chão. Ploc é o bicho de estimação da Maryquem que, só pelo nome, já tem de sobra mil motivos para trincar todos os dentes até quebrar um por um, e ainda tem que aguentar histórias sórdidas de cotoveladas abusivas na condução. Mal o seio direito se recupera de uma pancada, lá vem safanão no outro. E quem paga as contas é a cabeça girando em torno do mesmo assunto o dia todo.
Passam as eras, mas não passa esse poder cinematográfico de uma mente projetar em si mesma uma infinidade de imagens recorrentes de péssima qualidade. Muita gente como a Kem e outros quem chegam a acumular milhões de imagens em uma caixinha fofa de veludo. E ninguém explica a razão de isso ocorrer, mesmo em mentes blindadas e benzidas com dons solares naturais. Falta de terapia? Imaginação? Pode ser... Mas será que as coisas são mesmo tão complexas como dizem os seres que produzem e reproduzem a montagem e a balbúrdia do cenário mundano? As chaves estão nas portas e, nas ruas, estão os caminhos. Quanto às pandorinhas que atormentam, claro que podem ser exterminadas, como um inseto, na sola do sapato, desde que não sejam amadas e cultivadas como rosas. Mas há quem goste de flores mortas como ninguém, como urubus em torno do que não tem mais vida. Gente assim até esquece de seus poderes humanos natos de artesão.
Por que levar as coisas assim, a ferro e fogo? Ao invés de deixar a cuca brincar de roda com a mimadinha louca do condomínio, Kem e mais alguém precisam aprender a brincar com a imaginação. É fácil! Faz de conta que a vida é uma roteirista de cinema e televisão — e ela é! Agora, convida duas celebridades para gravar um take no meio desse kem-transtorno. Eu recomendo Bela Gil e Pollyanna, uma parceria imbatível que realmente funciona. Além da química, essas duas têm uma capacidade ilimitada de provocar as mais variadas reações químicas que podem explodir com qualquer vício torturante comportamental, entende? Ambas são especialistas em duplas trocas de situações e minimização de prejuízos emocionais e físicos. Num instantinho, as duas conseguem remontar qualquer cena com um simples toque de “plim!”, e a vida volta a sorrir novamente para todas as cores de um arco-íris desprezado na lâmina de uma realidade suja.
Na cena do gato, Pollyanna diria:
— Que bom ver esse gato arremessado para cima! Só assim posso ver voando um mamífero quadrúpede.
A Bela chega correndo com um pé de jaca na mão direita. Pollyanna fica ainda mais conformada, porque o gato se atraca em uma jaca verdinha enquanto uma outra madurinha cai aos pés da surtada — mas no roteiro você pode substituir os pés pela cabeça da agressora de animais. Aí a Bela bate palminha porque, estressada com a situação, em vez de comer um sanduíche, Kem pode se fartar com uma jaca nutritiva e deliciosa. Menos uma paciente para o SUS.
Na cena seguinte, prevendo o assédio sexual ao subir no ônibus, Kem ou alguém combina com o motorista uma freada na hora exata do crime, e o ogro roçador cai de boca no vômito de um passageiro bêbado, sem direito a um grito de “eca!”. Bela chega voando, feito Mary Poppins, quebra a janela com seu guarda-chuva, pousa no veículo e aproveita o momento para falar com abrangência ao ébrio dos cuidados que o sujeito deveria ter com o fígado, trocando a bebedeira por um suco de laranja. Vai vendo... Só que Pollyanna, rápida no gatilho, encontrou um caminho para sua fala, lembrando que se a pessoa estivesse na frente do assediador, o abuso não teria ocorrido. Kem gostou muito da ideia e, na cena refeita, aproveitou para dar um coice no bagulho do ogro roçador. E assim ficou o Vale a Pena Ver de Novo, totalmente reformulado e perfeito para as almas sensíveis e sessão da tarde.
Viu? Ninguém precisa ficar remoendo rancores, revendo imagens de horrores que brotam como se a mente fosse um manancial de tragédia. Agora, se você queria mesmo é ser a Feiticeira e mudar o mundo, mexendo a pontinha do nariz, eu entendo. O ser humano é mesmo um eterno insatisfeito. Se não tiver um problema, ele manda fazer, manda comprar... E como é bom ter problemas! Problema dá ibope — é o que diria Pollyanna. Mas se você não sabe escrever um roteiro para novelas de televisão, busca uma satisfação no coice do bagulho e não mete o nariz da Samantha no meio.
Deu “plim!” na cabeça?
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 26/06/2026
Alterado em 27/06/2026