Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
A menina, o duende, o ogro
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        É verdade, sim: foi o Chico Mentira quem dobrou a corda em quatro partes e meteu nas pernas da menina! Pouco antes disso, tacou talco nos olhos dela. A pobrezinha, por uma semana, acordava cega, com os olhos colados. É uma lista que merece o Guinness.

        Mas qual é o problema dos familiares de meninas?! Uns fingem que não veem, outros calam, e o resto passa a mão debaixo da saia dela e ri; entra sem bater no seu quarto, enquanto ela começa a se vestir, e sai gritando que viu a garota pelada. Se ela dança ao lado do rádio, é chamada de vadia e de outros nomes. Não aparece um para acudir.

        Onde adolescentes deveriam ser protegidas, é justamente onde são mais agredidas. E ainda tem cenas do irmão que vai dormir com um revólver sob o travesseiro e chuta a janela; põe uma perna no alto do encosto do sofá, sem cueca, e morre de rir quando a jovenzinha de 10 anos avista a coisa dele toda espalhada. No dia seguinte, o desgraçado acorda, cisma com um gato e, armado, resolve transformar o bichano em alvo. Logo um gatinho, o bicho preferido da irmã...

        A família ainda exigia dela a serenidade e o comportamento de um monge...

        Em sua cidade, tinha um alto-falante; no seu quintal, tinha um balanço. Roberto Carlos fazia muito sucesso com "Quero que tudo vá pro inferno", e ela cantava junto com a alegria de quem foi resgatada por um duende de um doente — um ogro —; das garras de guerras humanas sem sentido nenhum para o planeta, ainda mais para o mundo maravilhoso de uma criança. A música era a sua salvação, o único direito que tinha alguém que nasceu menina no meio de uma grande Gestapo.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 15/07/2026
Alterado em 16/07/2026