Depois da viagem
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Depois da viagem
Conheço minha natureza e afirmo: quando eu fizer a última viagem não vai ter espaço para qualquer sintomática alheia; minha preocupação será com a análise sintática, que espero ser o mais simpática possível.
É comum, justo quando se vai, o desabrochar do verbo ser — esse fruto shakespeariano, dramático e, ao mesmo tempo, aplicador de todos os carimbos rotuladores. Basta não ser mais — nem estar — que lá vem ele com suas ligações tipo era, não era, não está, "mas sempre vai estar em nossos corações..." E onde tem verbo de ligação tem predicativo. Depois desse texto, pelo menos não vão poder dizer que eu era ruim em sintaxe.
Está cravado em muitas letras da MPB. Dois exemplos lindos podem ser atribuídos a Nelson do Cavaquinho e Noel Rosa. No primeiro, Quando Eu Me Chamar Saudade, o verso "...vão dizer que eu tinha um bom coração" é um alfinete. Enquanto o samba Fita Amarela destaca a nova face do inimigo diante de um defunto que, antes do embarque, foi de uma bondade nunca vista.
Mas preste muita atenção, você aí: diga o que quiser de mim, nesse derradeiro dia, só não diga e nem pense que eu morri. Do meu poleiro astral dourado, onde serei e estarei firme e forte como nunca estive, vou ficar olhando pra você. E se, do meu patamar evolutivo, eu não tiver permissão para dar uma voltinha aqui na Terra, saiba que eu virei assim mesmo.
Não sou do tipo que morre. Mas se você insistir nesse detalhe sórdido eliminatório que implica vermes e purgatórios... a coisa vai ficar feia pro seu lado. Nada de huuu.. buuu... Originalidade é uma preciosidade que eu vou levar comigo. Aguarde-me... vou cantar no ralo da sua pia e dançar ao som dos seus talheres e pratos; vou te envolver nos meus fluidos roxos opacos, em pleno banho; e transformar tua geladeira em um portal com senha trancafiada em um cofre perdido: oh... a cerva, a pizza, meu Deus... Pois é, né? E os doces que te matam mais quando não dá para comê-los… Pior será o fim das telinhas de que você tanto gosta... Todas craqueladinhas no fundo do bueiro que é pra você pensar mais na tua vida do que na morte alheia. Ou você acha que, no andar de cima, eu ainda vou ter que me estressar vendo um walking dead, pela calçada, mais parecido com um fantasma do que uma alma penada, com os olhos pregados nas teclinhas? Claro que não!
Então vai se acostumando com a ideia de que a morte e eu somos como a coca-cola e o chazinho. Só os patriotas vão poder pensar e dizer que eu morri porque, pra eles, eu já estou morta mesmo. De qualquer modo, eles que esperem para ver a história da praga e do prego paralisante, imbatível que eu vou aprontar pra eles também.
Sempre fui teimosa e perturbadora. Sob uma capa fluídica e translúcida, você acha que eu vou ser o quê?
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 20/07/2026
Alterado em 26/07/2026