Hoje é hoje
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Se não me engano, se não estou sonhando ou tendo um pesadelo, parece que hoje é hoje. Estou nele, dentro dele, do seu túnel que sempre nos leva irreversivelmente. Repare sintaticamente na frase para não errar na prova de fogo do dia a dia: depois do verbo de ligação, hoje só pode ser predicativo. E predicativo é a qualidade do sujeito "Hoje". Assim afirmam os gramáticos do mundo inteiro.
Mas, levando o caso para a interpretação de texto, a qualidade do hoje é o amanhã. Não há hoje sem ele, não importa aos que já se foram. O amanhã vem nublado, ensolarado, chuvoso, frio ou quente. Está no livre-arbítrio dos presentes, hoje, imaginar a chegada do amanhã como quiserem. Minha imaginação iludida e sonhadora não tem cura. É uma artista versátil, exibida, crédula e multimídia: canta, dança, pinta... suas telas do amanhã são sempre uma metáfora dos filmes de Hollywood e, ao mesmo tempo, surrealistas. Se eu pudesse torná-las reais, seriam uma síntese das melhores estações do ano, com efeitos especiais noturnos e matutinos; um dia doido com estrelas, sol, cometas, arco-íris... e céu lilás. O dia é meu... qual é o problema? Eu tenho o direito de esboçar, no meu cavalete mental, lindas aquarelas com tudo o que me é de direito, incluindo os mais belos musicais da Broadway.
O problema do hoje são os ponteiros do relógio. Parece um revide, uma vingança dos carrilhões. Há um novo tempo inventado, no ar, que voa mais do que as próprias horas. Aos meus olhos, chega a ter um topete loiro. É um hoje que já chega cansado, quase se desmanchando de tão velho. Dependendo da natureza do esperante ou do atleta olímpico que salta sobre ele e chega depois do amanhã, esse breve momento de 24 horas pode ser que tenha outras caras. Mas, geralmente, funciona assim mesmo. E se agora nem tem mais Late Show, pode ser que amanhã não tenha mais Today. O mundo se transfigurou. Parece que já acorda com cara permanente de um soldado romano à cata de cristãos, embora uma parte dele ainda capriche na sapiência, feito um idoso grego na Antiguidade Clássica. É um mundo tão imprevisível que nem mesmo as pitonisas teriam a menor previsão no meio de suas fumaças aromáticas. Para muitos, o dia de hoje vem como um avião que, após sobrevoar a guerra, chega destroçado e faz de escombros os sonhos.
O espiritualismo afirma que o livre-arbítrio é uma lei que governa o universo. Sendo assim, Deus não pode aplicar seus raios poderosos e restauradores como deveria. Então, quer dizer, esses tais substitutos, esses preparadores do amanhã aí, deveriam, pelo menos, fazer um curso de roteiro de cinema. Quem sabe assim, nesses temporais permanentes, a gente possa sapatear, tocar violino nos telhados e dançar ao som dos uivos dos ventos.
Vai me dizer que a vida não seria melhor assim? "You may say I'm a dreamer..." Mas, caros credores e contribuintes desse velho sistema, não fossem os péssimos roteiristas que só entendem de terror, esse planeta poderia ter hortas e pomares em cada esquina. Podem ter certeza!
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 25/07/2026