Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
O Dom de ser feliz
.
          A locomoção da mente assombra. Ela segue fluídica, flutuando... É uma correnteza diferente que parece desaguar no cérebro. Mas deve ser engano. Essa pequena circunferência torta, essa massa cinzenta, nojenta, pegajosa, viva, irrigada por vasos sanguíneos, tem lá suas conexões com milhões de nervos, mas não tem espaço suficiente para abrigar tantos universos.

          Dá para ver atrás da cortina uma sombra, nos sapatos sob as camas e nas portas... tudo pode estar escondido neles. Dá para ouvir os passos, os barulhos do que se julga oculto. O monstro só está quieto. Nem precisa de lago e não importa o seu endereço. Onde ele mora, ninguém sabe, e não importa. O problema é que ele anda, flui, voa... e surge de repente, nas horas mais inesperadas e inconvenientes. Ele vem com mantos noturnos das suas confecções — noites sólidas que ele inventa em suas fornalhas. O pão aterrador que alimenta as meias-noites que habitam eternamente no fundo de cada visão. Pela fresta, dá para desconfiar de brilhos fulgurantes, dá para ver nesgas de céu todo azul. Todo azul, sim. As nuvens que o tingem de branco são de uma outra história. O céu parece que é sempre azul. A ciência atribui ao oxigênio. O monstro oculta, ocupa tanto a mente que não dá para ver o resto do leque de ilusões e belezas. As restrições humanas não deixam claro o universo nem de versos, por tanto que é diverso o poder de fulgor, de luz e alegria que poderia afogar de êxtase as humanidades de toda a história do planeta.

          A tristeza é real mesmo? Ela existe ou é uma invenção? Paralelamente, nada do que é maravilhoso deixa de existir por conta do que é ou de quem é triste. Desabam chuvas, aterrando casas e pessoas, tudo na mira do maravilhoso que assiste ao show, o verdadeiro fantástico show da vida humana se arrastando como um peixe epiléptico fora d'água.

          Gente precisa voar, flutuar, visitar planetas sem chão. Ter como alicerce simplesmente as nuvens. Fluir é um transporte que separa sentimentos opostos, até porque a tristeza não é muito chegada a deslocamento. Talvez nem a alegria. Cada uma ocupa o seu lugar. Enquanto a estagnada das artérias furadas ocupa os espaços subterrâneos, a alegria vive sob luzes em total plenitude. Sentimentos, na verdade, não andam. Cada um vibra em um lugar para onde se deve transportar o viajante da Terra. E que seja feita a melhor escolha. Há milhões de serpentinas cósmicas coloridas no ar. São formadas de matéria fluídica indestrutível. É preciso acreditar no voo, tirar dos pés o complexo de réptil e das mãos a mania de tocar, estocar, acumular, atirar, fundar anéis sobre anéis de troias infinitos... e da cabeça a ideia de ser dono. Ser feliz é um dom, um voo que depende de exercício.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 12/08/2026
Alterado em 13/08/2026