Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
A semente do cravo
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          Cresci ouvindo queixas sobre gotas de xixi na tampa da privada. Era a vizinha aos berros e uma série de Marias que se aninhavam nos ombros de minha mãe lá na minha casa de infância. Eram queixas líquidas que, sem dúvida, procediam. De um lado a amônia, de outro as lágrimas salgadas, e minha mãe no meio com seus argumentos sólidos e infalíveis que se resumiam a conclusões mais simples. As pobres voltavam para suas casas, conformadas e úmidas,  certas de que seria tudo muito pior sem eles e que não valeria a pena deixar tanta coisa líquida destruir seus lares: o xixi, a cachaça e um mar de sereias no meio do caminho.

          Passei um tempo aguardando um ponto final nesse assunto. Ao invés do ponto, mais Marias. Não demorei para perceber que essa reta de segmentos dramáticos não acabava nunca. Então mudei de calçada e, sem a família perceber nem eu, dei para seguir as feministas túnel adentro, ponte afora... Enquanto elas iam, eu via em minhas janelas o suficiente para entender que eu precisava crescer e, depois disso, de muito estudo e dinheiro. A estrada feminina era uma rua sem saída, estreita, sem polícia... uma só coisa parada e, ao mesmo tempo, contínua. E nunca saía do ponto. Não era uma estrada rolante. Era sem vida.

          Na minha casa, tudo fluía. Havia grandes homens que moravam em uma enciclopédia que ganhei de presente. No teto do meu quarto, entre as telhas, morava um menino translúcido,  sequinho, que não molhava nada; e no resto da casa, meu irmão mais velho totalmente sóbrio, seco, devoto, ouvia Nelson Gonçalves e Lucho Gatica... Enquanto o meu pai caminhava e nós víamos o modo de fazer isso, sempre em frente. À vezes, eu chorava por outras meninas e soltava espuma nos cantos da boca. Mas, na verdade, não tinha dos homens muitas queixas. Os de casa levantavam o assento da privada inteiro e, pelo jeito,  seus sprays tinha um jato certeiro que atingia completamente o alvo. Gotas de amônia masculina, então, nunca foram para mim um problema. Invés de casamento, minha prioridade foi construir alicerces sólidos, sem infiltrações, chegando a um resultado satisfatório que me trouxe independência financeira e um apartamento com um banheiro só para mim. A independência emocional (relativa por conta de tanto mar, Gatica e Titanic) veio de brinde em cada folha de papel em branco que chegou a mim. Não havia nada que eu não trocasse por palavras. E quanto mais eu perdia, mais encontrava aladinhas até nos buracos das paredes. Eu sabia dos meus limites e dificuldades para me ajustar a certos grupos familiares e seus quadrados engessados, então não entrei neles para não ter que sair sob ameaças e constrangimentos. Isso não foi nada fácil. Mas a mesma onda que me afogava, me salvava com respiração boca-a-boca. Sou dependente de transes e tubos líquidos que possam me levar, me diluir e me resgatar. Para uma mulher, nem sempre uma saída é fácil. Ouvimos conselhos não solicitados, recomendações para não entrar em la barca... E em caso de perder de vista a luz do sol, muitas acabam voltando correndo para o inferno original. Vi muito isso em cada fase do meu crescimento. Soube de muitas facadas e de algemas para facilitar os pontapés e o movimento dos chicotes nas costas nuas, nos decotes e transparências. Muitos pensam que uma mulher é uma boneca útil, disponível nas vitrines do mundo, e que serve para desfilar nas baladas, lavar, cozinhar… e é ótima em todas as posições.

          Sem mágoas… Sou semente de uma árvore genealógica frondosa: refrescante no calor e acolhedora no frio. Meu pai era um verdadeiro cravo, flor de uma serenidade que inspirava a admiração da paz, da própria c(alma). Isso me ajudou a efetuar uma questão matemática cuja soma da minha independência com a luz daquele anjo, que me guiou sem garras, me fez mansa.

          Muitos homens são semelhantes aos cactos, cacos de vidro, arame farpado... Estes, geralmente, são belicosos. Mas há também os de peitos veludosos que nos deixam misteriosas como a noite que se entrega inteira ao dia e deixa que ele transpasse o seu corpo com as luzes da manhã.

          É para um desses que eu canto.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 30/08/2026
Alterado em 30/08/2026