Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
O País Maravilhoso de Alice
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          O País das Maravilhas de Alice existe. É um Shopping! A grande sacada da Arquitetura mundial. Lugar em que não entramos simplesmente; atravessamos um portal mágico e... plim! Dentro dele, nos esquecemos... perdemos a noção do tempo e nacionalidade. O mundo fica do lado de fora com todas as suas mazelas: pivete, mendigo, criminosos, favela... e seguimos, indiferentes, saboreando alienada e  confortavelmente a delícia de bancar o "Flâneur" nessa coisa meio submersa que é um Shopping Center. Não importa a segurança e nem as câmeras que jogam as nossas caras em vídeos que ficam em salas mais submersas ainda. É o tal do panóptico — uma coisa que exige uma certa elegância, religiosidade e honestidade das mãos para que nada saia errado na filmagem, entende? Sorria apenas!

          Quando entro em qualquer Shopping, no Rio, me sinto como o Almeida Garrett diante do Pinhal de Azambuja. O quê?! Mas é isso que é Cultura Brasileira? Essas "Viagens na Minha Terra" sempre me levam a uma exaltação americana, aos funks, filmes hollywoodianos... E também a centenas de carinhas da Madonna estampadas em revistas, tênis, bolsas, blusinhas... Vi inúmeras vitrines totalmente inspiradas na bandeira americana em plena Copa do Mundo, e ainda sou obrigada a engolir essas tais bandeiras nas portas das eleições. Que País é Este?

          Do lado de fora do Shopping, alguém pichou um muro com um letreiro homérico: BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO!

          Mas o que é que estamos fazendo?

          Estamos comprando o que interessa e não interessa. Somos aprendizes de faraó, colecionadores de tralhas que acabam jogadas e empoeiradas pela casa afora. Mas passamos correndo pela fome do menor abandonado para não enxergar a nossa própria indiferença.

          Estamos, homens e mulheres, preocupados com as polegadas a menos ou a mais nas coxas e quadris, enquanto quilômetros de mediocridade e ignorância incomodam a muito poucos.

          Profundamente marcados pela herança colonialista, não temos uma noção de conjunto social, não estamos nem aí para mazelas alheias. Queremos o ranque, o panque, o fanque... E tatuar a pele, furar o nariz.

          Renegamos a própria cultura e, ao mesmo tempo, procuramos a Preta-Velha para nos tirar o "olho-grande", benzer a cueca do marido e costurar bruxinhas recheadas com nomes de inimigos. A moral é dúbia.

          Somos como povos originários que, após corrompidos e catequizados, engoliram hambúrgueres, tralhas importadas e todo tipo de bundalização da cultura. O Brasil não é só uma cópia, é uma corruptela, um equívoco, uma má interpretação da cultura alheia. Daí, resultados jocosos como Makambira's Center, forró ("For All"), oxente. Esta última tem suas origens no Rio Grande do Norte, quando americanos, enquanto instalavam uma base de guerra entre 1939/45, repetiam "shit", cada vez que algo saía errado. Felizmente, o "forró", o "oxente" podem ser considerados bons frutos, ao contrário do makambira's tão indigesto quanto indecifrável.

          Mas o Brasil é assim...

          Quando Chiquinha Gonzaga implorava para mostrar sua música, a aristocracia fechava as portas pro maxixe — "coisa de senzala!". A preferência era o glamour francês. Agora, Nova York é que dita os modismos por aqui.

          No entanto, cadê a inteligência estrangeira na vida real do país (na Saúde, na Cultura, na Educação)?

          A Educação brasileira é um monstro que cresce aos nossos olhos impunemente. Sua ineficácia e mediocridade já estão criando os escravos, miseráveis e transtornados do futuro.

          E o que estamos fazendo?

          À noite, nos trancamos em frente a monitores, TVs e vídeos. Rimos das mesmas piadinhas de programas de humor, choramos com os mesmos dramalhões de novela e decoramos jargões para espalhar na cidade. De nossas janelas, ouvimos os tiroteios, indicadores de movucas ou  mais um descarregamento de drogas, no morro, que vão matar alguns e tornar muitos mais viciados ainda.

          Então pergunto, finalmente, o que estamos fazendo?

          Estamos pagando conta,    
fazendo conta, fazendo de conta...

          E era uma vez um país.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 16/09/2026
Alterado em 17/09/2026