Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
A queda de Ícaro
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          Um dia desses, de volta para casa, avistei dois jovens, em um banco de praça, totalmente integrados um ao outro. Foi a coisa mais linda! Enquanto o fruto dos dois dormia em um carrinho, abraçados, eles ouviam "Sonho de Ícaro", no celular, e cantavam juntos, baixinho. Geralmente, dessa faixa etária, um batidão é mais comum, por isso me surpreendi com eles cantando uma canção cuja letra é impregnada de lirismo. Espero que a relação deles dure muito para que essa música não se torne, em suas almas, o avesso de si mesma — como algo nocivo cujo contato mínimo causa dor e apaga a luz que ilumina o corpo e o espírito.

           A cena, por si só, já foi um poema e quase motivou o meu transporte imediato, mas encolhi as asas entre motos barulhentas e tão velozes que pareciam me ameaçar a cada milímetro do caminho. A poesia é assim mesmo, uma aparição repentina. Questão de permitir aos sentidos a percepção desses momentos no tempo certo. Já acostumada com esse fenômeno recorrente, não me preocupei com o balão. Ele voa... mas geralmente retorna e pousa nos quintais da minha mente como se fosse ave. É isso o que ocorreu agora, uma semana depois.

          Sonho de Ícaro foi um sucesso do Biafra, na década de 80. Me lembro do quanto essa música me paralisou e, ao mesmo tempo, me proporcionou um voo galáctico movido por inúmeros plins de cada verso. Eu me lembro que eu morria, como ainda morro, no universo de uma letra que me arrastava para outro mundo cheio de uma vida totalmente diferente dessa que levamos, obediente a um sistema e convenções. Eu ainda estava na casa dos 20 anos, ainda era vista como uma garota esquisita. Mas os versos da melodia eram para mim um argumento e também uma justificativa que me traduzia. Principalmente estes que dizem:

"O que faz de mim vem do prazer
de querer sentir o que não posso ter
O que faz de mim ser o que sou
é gostar de ir por onde ninguém for..."

          Estes versos me explodiam e  espalhavam meus cacos em um universo maravilhoso onde eu não identificava seus elementos, mas me deixava arrastar pelas vias da intuição e, através de um resgate automático, um "plim!", me reconstituia e me recuperava inteira. Até hoje isso é, para mim, um remédio eficaz que me concede uma espécie de cura temporária. É por isso que eu não paro de escrever. Chega a ser insuportável um dia sem me afogar em um processo de criação. Escrever é uma reza que me livra de todo mal. É disso que me alimento, é nisso que consiste a minha existência.

          É por uma circunstância biológica que temos vida. Afora isso, que não nos basta, nada é mais imprescindível a um ser humanizado do que a Arte. Faz pena ver que um processo industrial ocupou os espaços da expressividade. Nada escapou: tintas, voz, palavras, sons... Tudo foi trancado em cofres de chumbo. A senha para sua abertura vale milhões. Deixaram apenas o lixo comercial do cotidiano disponível. Um lixo que permite a catadores capazes de articular elementos comerciais e lucrativos a uma promoção aos condomínios de luxo na Barra da Tijuca, Ipanema...

          A marcha iconoclasta das produções artísticas está detonando os nossos monumentos em todas as formas de expressão, com exceção, felizmente, dos artistas consagrados e milionários que ainda podem nos arrepiar com suas obras divinas.

          Faz pena ver a Arte em segundo plano com suas asas de Ícaro derretendo no calor dos fornos industriais. A boa notícia é que nunca vão conseguir abafar o sopro da criação natural que se propaga no ar e ecoa nos verdadeiros criadores que nunca vão deixar de surgir.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 27/09/2026
Alterado em 27/09/2026