Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
Itararé
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          O trânsito estava tão lento na Estrada do Itararé que as janelas do ônibus se transformaram em telas. Dava pra ver, inúmeras vezes, as mesmas cenas e tudo o que estava em movimento durante todo o percurso.

          Essa estrada é parente do Barão — uma via sólida e uma vida humana batizadas com nomes de batalha.

          Em 2022, Lula foi aclamado no local. As letras do seu boné levaram a culpa por uma possível ligação do candidato com o crime. Dentro do veículo, agora, em 2026, mais fake news chegava aos meus ouvidos. Alguém falava que o novamente candidato tem um comitê dentro da Grota, como se isso fosse mais um indício de conexão com os traficantes.

          Tempo de eleição é um momento de contexto maledicente que nem sempre corresponde à verdade. Cá pra nós, a existência de um comitê eleitoral (seja de quem for) e de criminosos, em um mesmo espaço, constituem duas narrativas perfeitamente independentes e sem uma mínima conexão suspeita.


          No Complexo do Alemão, a interpretação equivocada dos fatos é permanente para quem lá não vive. A ponto de todo o espaço humano ter uma figuração metonímica em que os belicosos representam o todo. Mas enganam-se os que pensam que lá só há criminosos. Grande parte dessa população é formada por jornalistas, advogados, domésticas, estudantes universitários... pessoas honestas que se deslocam para o trabalho todo dia ou seguem amiúde em busca de um lugar.

          Elas são a tradução literal de itararé — palavra tupi-guarani que significa rio subterrâneo que corre por baixo da pedra. Sim! Embora massacrados, seus moradores fluem no muque sob a rocha. São lutadores, um exército composto de guerreiros.

          Pena que eles ainda não sabem disso.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 30/09/2026
Alterado em 30/09/2026