Cristina Ribeiro - Prosa & Verso
"Eu sei que canto e a canção é tudo" - Cecília Meireles
Textos
Dona Anô
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          Há quanto tempo não vejo Dona Anô... Talvez porque passei a fazer compras em um mercado mais próximo do trabalho. Antes, costumava vê-la no que é pertinho de casa. Mas vamos dizer, ainda no presente, que Tia Nonô é uma figura anônima — sem documento, sem nome. Ela é parte da paisagem como o ipê debaixo da minha janela. Anda sem parar pelo bairro — é uma figura mágica, dessas que a luz do cinema não só tornou visível como ainda imprimiu nelas uma auréola.

          Quem nunca viu personagens assim em uma escadaria, uma praça florida com pombos ao redor ou em uma linda porta artesanal como a da Candelária? Em roteiros de filmes, são tão discriminadas como nas cenas reais do nosso velho mundo atualizado em suas vestes e plugs. Mas, principalmente em Hollywood, crescem em uma determinada cena com um gesto de salvação definitivo — como um balde de milho atirado aos pombos que acode uma criança vitimada e resgata o seu sorriso.

          Desde criança, nunca consegui entender por que pessoas moram na rua. Algumas parecem mortas, fossilizadas, chegam a se confundir com o chão. Isso é tão chocante que me afetava muito, apesar de menina. Pensava que deveria ter tido uma reação das pessoas próximas, quando surgiu o primeiro sem-teto no planeta. Mas prevaleceu a indiferença. O mundo optou pelo avanço tecnológico. O ser humano... foi entregue à própria sorte.

          Dona Anô é um ser livre, mora no centro da liberdade aberta para o cosmos. Sua situação é totalmente independente da sua dignidade, mas provavelmente um prato de arroz, uma garrafa de café e pão com manteiga seja o que prevalece em sua mente.

          Ela é a personificação do verbo ser. É a pessoa "mais-é" já vista. Extrapola o existir — é inteira. Não se limita às ligações do verbo. Quando chega, mostra logo que não precisa de complemento. É autossuficiente à sua própria maneira. Me faz pensar no quanto eu devo desprecisar, no quanto eu carrego e quanto trabalho tenho com minhas acumulações que me tornam colecionadora de poeira. É tanta que já pude até perceber o conjunto das microisinhas que compõem a sujeira que descansa fogosa em meus guardados e expostos. Tia Nonô só precisa passar nesse mercado que tem um banheiro na lateral com uma bancada composta de duas pias, sabonete líquido e papel-toalha à vontade. É ali que ela dá um jeitinho em suas coisas.

          Nunca a vi dormindo. É uma caminhante, uma viajante dos dias, turista de tardes e noites. Com as várias sacolas típicas de andarilhos, ela segue no tempo. Ela mesma estabelece seus pontos de parada. É inexplicavelmente limpinha — parece um ser autolimpante porque não imagino onde faz uma higiene mais profunda. Será que ela tem um portal anulador de odores ou é inodora mesmo? A resposta pode ser tão difícil quanto entender o tíquete ilimitado de entrada que lhe dá acesso a variados locais do bairro onde costuma ser vista. Fez dos seguranças, amigos — das meninas do caixa, sobrinhas. Tia é o termo que dispensam a ela carinhosamente. Em troca, recebem um sorriso confiante e sabido.

          A outra impressão que dela tenho é a de ser uma conselheira — discreta, claro. Nunca a vi esbanjando sabedoria, mas já percebi seus papos aliviadores com alguns clientes e com os funcionários do mercado. Eu mesma já falei com ela do tempo, do calor, do frio... Foi em uma noite fresca de prata. Percebi logo que havia algo comum entre ela e uma estrela acima de nós, muito atenta ao que dizíamos. As duas não eram iguais, mas eram soltas no espaço — seres autorrenováveis, autossuficientes. Estranhas estrelas...

          Sempre quis saber onde mora essa criatura misteriosa, ilha rodeada de sorrisos. Não é possível que não tenha pelo menos um cantinho. Sua aparência de uns sessenta, bonitinha ainda, e aquele jeito sábio, destoam do lar que mantém pendurado em um ombro torto. Tia Nonô parece um cabide. Está sempre com um lenço na cabeça e vestes sobrepostas: blusas sobre blusas e umas três saias sobre uma bermuda até o joelho. Com certeza, a ideia é vesti-las todas para não ter que carregá-las. E faz isso até no calorão de janeiro.

          Dona Anô é uma figura muito estranha... mas não parece triste. É séria como uma estátua decidida, de olhar universal pregado em um ponto do infinito. Um dia, ficou próxima de mim novamente. Dessa vez, na fila do caixa. Em seu carrinho, tinha uma pequena compra selecionada — como um estojo de primeiros socorros sem função medicinal. Era só para calar o leão da fome que ruge no estômago pela madrugada. Enquanto nós fazíamos compras, ela tratava desse último procedimento do dia. Estava quase na hora de fechar o mercado e ela teria necessidade daquelas coisinhas no seu esconderijo em algum canto: um pão, biscoitinho e uma garrafinha fosca para encher no bebedouro. Era sua vez de passar a mercadoria. Depois de pagar, sorriu para algumas meninas dos outros caixas. Uma delas, do outro lado, lá do fim, jogou beijos agradecidos para a figura mágica do tempo.

          Dona Anô é uma personagem contraditória que pode confundir. Sua carência é aparente, mas sua personalidade é escultural, altiva, solta... É desprovida de propriedades e objetos, mas parece ser dona de um passo decisivo que um dia tomou na vida — e que a tornou livre de um passado povoado de fantasmas destruídos por um simples gesto de virar as costas e se atirar ao mundo como se ele fosse a lona que protege o trapezista.
Cristina Ribeiro R
Enviado por Cristina Ribeiro R em 04/10/2026
Alterado em 04/10/2026